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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O albergue

Curitiba, 16.11.2008

O passante ruído musical que se fazia ouvir alto da rua às margens da meia noite, embalado pelas gargalhadas dos que não precisam se preocupar com o despertador no dia seguinte, não deixavam dúvidas de que o fim de semana chegara. Telefonemas e mensagens de texto davam vida ao aparelho de celular jogado à cama, que vibrava ao som das músicas selecionadas para acusar os que lhe procurassem.

Economizando ao máximo as palavras, ainda que delicadas, a dona do telefone ia, um a um, recusando os convites que chegavam. Entretanto, não sendo eles isolados, tampouco descartáveis, terminou por ceder, e escolheu uma roupa bonita.

Vestiu-se. Passou pela cozinha, passou pelos detalhes dos chamados no telefone, avaliou - desinteressada - os prós e os contras. "Peixe assado e camarões não é de todo mal." Balançada, mas não vencida, deu outras voltas pela casa, e finalmente retirou uma bandeja de coxinhas congeladas do freezer.

Outras ligações ainda interromperam a ceia simples e improvisada em frente à televisão, e foi após o cigarro digestivo que ela decidiu que a únicas companhias que desejava naquela noite eram as de seus moradores internos.

Vestiu o pijama e fechou a porta do quarto frio. Entrou nele e no albergue.

A síndica do local, conhecida como Consciência, sensível aos sinais da proprietária, convocaria a todos para uma reunião de emergência. Era hora de discutir o andamento das questões internas para o bem-estar do corpo e para a boa convivência ali dentro.

Iniciando a conversa, Consciência não economizou em acusações, tratando de forma incisiva o problema núcleo que assolava os moradores no momento: o desentendimento nas questões afetivas.

Seu alvo principal foi a Alma. Chamou-a de medrosa, fraca e perdedora. E ela quis sentir-se triste. Era covarde, de fato, e automaticamente passou a procurar exemplos que justificassem a razão da Consciência. Encontrou.

Lembrou-se de ápices em que a síndica lhe orientara: “Vai, menina, vai! Parte ao encontro dessas mentes ricas que te querem perto. Isso lhe fará crescer.”, e em que a Alma debilmente insistira no não. “Não sou familiar a elas. Irão me desprezar quando passarem a me conhecer de verdade. E eu preciso me sentir bem.” E seguiram desta forma seus pensamentos. Veio-lhe à mente a noite anterior, o ciúme doentio e o dia em que deixou seu amor em prantos e partiu. Entendeu os motivos da “fuga”. Perplexa, percebeu seu medo. Medo de fracassar.

Diferente do que podemos imaginar, a Consciência se revirava de angústia na medida em que a Alma assumia seus erros. Era a prova de que ela própria era, na verdade, uma impostora. Idealista, arrogante, julgava e martelava os mais ínfimos defeitos do próximo, aguardando, do alto de sua falsa superioridade, o dia em que pudesse livrar-se deles.

A Alma sentiu-se perdida. Era ingênua e pura, acreditara na síndica, sempre tão segura de si. Mas o abismo da insegurança de repente lhe engolia. As profecias tão iluminadas, tão defendidas pela Consciência, derretiam-se.
Escurecia. Nostalgia.

Eis que uma terceira moradora do albergue, de comportamento carente e sentimental, já atingida pela tristeza da Alma, se aproxima do Orgulho, buscando um mimo. Mas ele não queria deixar transparecer seus desejos e a repudiou imediatamente. Desolada, buscou no criado mudo o aparelho celular, tão inútil até então naquela noite. Nele havia marcas de momentos estranhos. Felizes e tristes, próximos e distantes. Havia também o carinho de que ela tanto necessitava.

A Alma viu a cena e então se acalmou. A Consciência também silenciou, num raro instante de emoção. A Carência derreteu-se... E o Orgulho armou-se.

Todavia, a paz (de certa forma tensa) durou pouco. Foi quebrada quando outro morador inesperadamente tomou o celular das mãos da vizinha e iniciou a ligação proibida! Logo a síndica gritou que aquele ato não era permitido dentro das limitações da hospedaria. A situação, entretanto, divertia o Id, que a provocara, e ele ria, realizado por sua iniciativa tão sincera.

Finalmente o Superego chegou e conseguiu retirar o aparelho das mãos do menino bobo e interrompeu a possibilidade de... Bom, isso não se sabe. O que se sabe é apenas o que os moradores acreditam.

A Alma pensa que seria desprezada. A Consciência que, quando solicitada, agiria de forma fria; defenderia o coração com as armas que tivesse disponíveis, como de costume. Para o Superego bastava o fato de ter cumprido seu papel. A Carência, coitada, via naquilo uma esperança... mas sentia muito medo de não ser correspondida. O Orgulho relaxava satisfeito, afinal os sentimentos do albergue não seriam expostos. E o Id ensurdecia os ouvidos dos outros. Gritava aos quatro cantos que amavam aquela pessoa, que sabiam que não conseguiriam viver sem ela, que aquele lugar era uma zona, que tudo estava errado, que longe dela, que não havia, que vida mesmo, que era com ela, que aquela boca, aqueles cabelos, aquele sorriso, tinham que ser deles, que tinha de ser agora, que tinha de ser para sempre.

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