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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Relicário

É uma índia com colar
A tarde linda que não quer se pôr
Dançam as ilhas sobre o mar
Sua cartilha tem o A de que cor?

O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou

E são dois cílios em pleno ar
Atrás do filho vem o pai e o avô
Como um gatilho sem disparar
Você invade mais um lugar
Onde eu não vou

O que você está fazendo?
Milhões de vasos sem nenhuma flor
O que você está fazendo?
Um relicário imenso deste amor

Corre a lua porque longe vai?
Sobe o dia tão vertical
O horizonte anuncia com o seu vitral
Que eu trocaria a eternidade por esta noite

Porque está amanhecendo?
Peço o contrario, ver o sol se por
Porque está amanhecendo?
Se não vou beijar seus lábios quando você se for

Quem nesse mundo faz o que há durar
Pura semente dura: o futuro amor
Eu sou a chuva pra você secar
Pelo zunido das suas asas você me falou

O que você está dizendo?
Milhões de frases sem nenhuma cor...
O que você está dizendo?
Um relicário imenso deste amor

O que você está dizendo?
O que você está fazendo?
Por que que está fazendo assim?

Nando Reis

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Pra Mais Ninguém - Marisa Monte

Entre nós deve haver sinceridade
Eu não sei o que é que você tem
Que não me beija nem me procura
Eu tenho medo de perder alguém
De quem espero que aquela jura
Não tenha ido para mais ninguém

O silêncio é uma tortura
Alguma coisa se perdeu
Você já não me olha como antes com ternura
Só falta me dizer adeus

Paulinho da Viola

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Amor Romântico

Puta verdade...

O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.

Fernando Pessoa

Soneto do Amor Total

Esse também era repertório do meu saudoso caderno... quem escreveu ele lá, lembro bem!, foi a Sheila! Quando eu lia esse soneto, lá, novinha, me encantava especialmente o último verso. Bom proveito!

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Toda vez

E toda vez que ela se aproxima
Seja com afinco, silenciosa ou sutil
Da surpresa tardia, de coração rico, de fala viva
Dentro de mim a alma vira toda brio
E nem a poesia, invariável companhia minha
Dá conta de secar tanto rio, tanto frio, tanto vazio
Que é falta da presença dela, virada em falta de sorriso meu.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Meu Deus, me dê a coragem

Forte, inteligente, firme... ímpar. Clarice é a mulher que revira o universo do avesso e tira o mais real dele para que a gente simplesmente desfrute.

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
meu pecado de pensar.

Clarice Lispector

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Amor

Já que o pessoal gostou de Vinicius, aí vai mais um... Não há como se cansar de Vinicius. Quem se cansa de Vinicius se cansou do coração.

Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos
Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a Vida.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Soneto de Devoção

Essa mulher que se arremessa, fria

E lúbrica aos meus braços, e nos seios

Me arrebata e me beija e balbucia

Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia

Que se ri dos meus pálidos receios

A única entre todas a quem dei

Os carinhos que a nenhuma outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama

A miséria e a grandeza de quem ama

E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é o mundo! - uma cadela talvez

Mas na moldura de uma cama

Nunca mulher nenhuma foi tão bela.

Vinicius de Moraes

O tempo da leveza

E chega o tempo em que a presença do outro é apenas uma questão de capricho. E que ter o seu amor é nada mais que vaidade.
Chega o tempo, tão anunciado, em que um poema da Clarice sobre a saudade já não é mais sentido fisicamente. Que é mais fácil ser poeta, é mais fácil ser romântico, é mais fácil ouvir as músicas do Chico Buarque.
Sim, chega um tempo em que o pensamento não tem apenas um protagonista, fixo; tempo em que cada sensação é relacionada a um personagem diferente. Cada frase de amor procura um rosto.
E quando esse tempo chega, a alma pode até se confundir, mas o coração agradece.
O amor pesa, e só quem já amou muito tem a balança que permite compreender a gratidão do coração.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinicius de Moraes
Rio de Janeiro, 1935
Tem coisa mais linda, mais sensível, mais incansável, mais real, mais profunda, mais bela, mais intensa, que a poesia de Vinicius?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

É depressivo

Viver da nostalgia do que acha que foi no passado.

E também é depressivo perceber que se está usando expressões feias como "é depressivo".

E ter o desplante de expressar suas ideias mesmo sendo elas desnecessárias, é depressivo.

Auto-crítica (ou baixa auto-estima) publicada é depressivo também.

Onde?

Onde está minha alma esparsa?
Onde está minha flor-de-lis?
Onde andam os meus conterrâneos,
aqueles que outrora não reconheci?

Dentro de mim era tudo escuro
Os galhos dos meus tropeços gris
A vida me falava ao ouvido
e eu teimosa não queria ouvir

Onde está meu coração tão nobre?
Onde estão meus amores pueris?
Dentro de mim hoje tudo é passado

Dentro de mim a vida não mais canta.
Minhas poesias hoje são mais simples
Meu coração hoje não mais encanta.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Uma aprendizagem

Eles pareciam saber que o amor era grande demais e quando um não podia viver sem o outro, esse amor não era mais aplicável: nem a pessoa amada tinha a capacidade de receber tanto. Lóri estava perplexa que mesmo no amor tinha-se que ter bom senso e senso de medida. Por um instante, como se tivessem combinado, ele beijou sua mão, humanizando-se. Pois havia o perigo de, por assim dizer, morrer de amor.

Clarice Lispector - Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Reverência ao destino

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.

Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.

Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.

Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.

E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.

Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.

Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.

E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.

Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.

Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.

Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"

Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.

Difícil é sentir a energia que é transmitida.

Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.

Difícil é amar completamente só.

Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois.

Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.

Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.

Difícil é seguí-las.

Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.

Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.

Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.

Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.

Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.

Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.

Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

Carlos Drummond de Andrade

Do avesso

E há também aquelas semanas em que não estamos voltados nem para o coração, nem para a razão, não há? Semanas em que estamos do avesso, em que estamos virados para dentro. Uns pela falta de trabalho, outros pelo excesso de pressão no trabalho. Em alguns momentos pela multiplicidade de escolhas. Em outros por não ter escolha alguma. Eu por não conseguir enxergar luz em nenhum dos múltiplos caminhos. Você por ter a luz e não conseguir se mover até ela.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Paixonites. (por Diogo Serraglio)

Você já se apaixonou? Horrível, não? A paixão nos deixa tão vulneráveis. Penetra nosso peito, não bate à porta do nosso coração, simplesmente o invade, e nele faz um reboliço. Passamos a vida construindo nossas defesas, nossas armaduras, com a doce ilusão de que nada mais será capaz de nos atingir. É nessa hora que surge alguém, igual aos outros “alguéns” que já passaram pelas nossas vidas, e como quem nada quer, toma posse delas... Acabamos nos doando, dando um pedaço de nós mesmos. E o pior, jamais nos pediram por isso. Um sorriso singelo, um abraço apertado, um olhar... isso basta para não sermos mais os donos de nossas vidas. A paixão nos torna reféns. Ela nos consome e nos corrói. E depois disso tudo, ela parte. Nos deixa chorando na escuridão. Na solidão. Comparo aquela típica frase “...acho que deveríamos ser apenas bons amigos...” a um caco de vidro. Sim, pois perfura nosso coração de tal forma que se torna difícil estancar a dor no peito. Isso tudo dói. Não apenas na imaginação. Não apenas na mente. Mas, sobretudo na nossa alma. Por que continuo me apaixonando?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Matando a saudade

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorve a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."

Clarice Lispector

terça-feira, 8 de setembro de 2009

poesia simples

a poesia
a gente cria
durante um dia
de solidão

caindo chuva
criando rima
deixando a mente
ser coração

é mesmo boba
por vezes simples
não tem nos versos
muita ambição

mas enche a alma
ou a esvazia

porque o que importa
é essa tigela
essa cimbrela
essa milésima
alta função

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Viver primeiro, morrer depois

Puts... olha esse cara:

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois
Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois
Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois
Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois
Mário Quintana

Na ponta do nariz

Eu tô atualizando bem mais esse blog do que o outro. Porque tem semanas que estamos mais voltados ao coração... e outras em que estamos mais racionais...
Da Felicidade
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!
Mário Quintana
Se eu não me engano, esses versos já estão aqui, em algum lugar. Mas eu passei o dia pensando neles, e não podia haver momento mais pertinente para postá-los.

sábado, 22 de agosto de 2009

Porque os homens não choram

Homem Não Chora (Frejat)
Homem não chora
Nem por dor
Nem por amor
E antes que eu me esqueça
Nunca me passou pela cabeça
Lhe pedir perdão
E só porque eu estou aqui
Ajoelhado no chão
Com o coração na mão
Não quer dizer
Que tudo mudou
Que o tempo parou
Que você ganhou
Meu rosto vermelho e molhado
É só dos olhos pra fora
Todo mundo sabe
Que homem não chora
Esse meu rosto vermelho e molhado
É só dos olhos pra fora
Todo mundo sabe
Que homem não chora
Homem não chora
Nem por ter
Nem por perder
Lágrimas são água
Caem do meu queixo
E secam sem tocar o chão
E só porque você me viu
Cair em contradição
Dormindo em sua mão
Não vai fazer
A chuva passar
O mundo ficar
No mesmo lugar
Um grande amigo, sócio e companheiro de meu pai, faleceu. Achei que fosse vê-lo chorando pela primeira vez. Em vez disso, encontrei um rosto interiormente sério, esboçando sorrisos por coisas que não tinham a menor graça. E os olhos profundamente tristes, mesmo secos.
Homem não chora. Eles não choram porque a sociedade lhes ensinou, desde antes de saírem das barrigas de suas mães, que são, ou pelo menos devem ser, o sexo forte. Que demonstrar emoções é para as meninas. As choronas são as meninas. As que têm medo de agulha são as meninas. Os meninos são os que têm de ir na frente, para encorajar suas irmãs. E então se fez lei que o homem guardasse para si tudo o que sentisse, e nada mais que força, certeza e atitude, demonstrasse.
Homem não chora que é pra não entrar em contradição. Afinal, por que meu irmão está chorando, agora que minha irmã viajou, se nunca demonstrou um pingo de afeto por ela? Nunca lhe deu um abraço, nunca lhe disse que se cuidasse, foi o único que não lhe escreveu uma carta de despedida, nada, nunca! Ora, não seria ele ridículo a ponto de chorar justo agora que a vontade dele, de tê-la distante, está mais que satisfeita, certo?!
Mas lá dentro só eles sabem, só eles, sabem o que está acontecendo. E como é difícil segurar aquela lágrima que insiste em escorrer bem na hora que alguém entra no quarto... Fazer cara de sono, de bravo, de indiferente, para que ninguém veja seu coração sangrando. Coração de homem não sangra, filho.
Hoje eu os entendi um pouco melhor. Compreendi como é difícil ser pego em flagrante, em plena contradição.
Eu posso chorar, eu sou mulher. Porém, hoje, eu não queria ser vista chorando. A culpa foi minha. Da tristeza transbordada, da paz desmoronada. Não está claro que eu sabia que isso ia acontecer, cedo ou tarde? E que me importa que isso tenha acontecido agora, se não me importava antes? A verdade é que ninguém ia entender o motivo das minhas lágrimas. E é por isso que hoje, só hoje, eu decididamente entendi meu pai.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Daughters - John Mayer

I know a girl
Eu conheço uma menina
She puts the color inside of my world
Que põe cor no meu mundo
But she’s just like a maze
Mas é como um labirinto
Where all of the walls all continually change
Onde todas as paredes mudam continuamente
And I’ve done all I can
Eu fiz tudo que eu posso
To stand on the steps with my heart in my hands
Para seguir as etapas com meu coração em minhas mãos
Now I’m starting to see
Agora eu estou começando ver
Maybe it’s got nothing to do with me
Talvez não tenha nada a ver comigo
Fathers be good to your daughters,
Pais, sejam bons com suas filhas,
Daughters will love like you do,
As filhas os amarão como vocês as amam,
Girls become lovers who turn into mothers
Meninas se tornam amantes e depois mães
So mothers be good to your daughters too
Então mães, sejam boas com suas filhas também
Oh, you see that skin?
Ah, você vê essa pele?
It’s the same shes been standing in
É a mesma pessoa que está dentro
Since the day she saw him walking away
Desde o dia que o viu indo embora
Now shes left
Agora está largada
Cleaning up the mess he made
Limpando a confusão/bagunça que ele fez
So fathers be good to your daughters,
Então pais, sejam bons com suas filhas,
Daughters will love like you do, yeah
As filhas os amarão como vocês as amam,
Girls become lovers who turn into mothers
Meninas se tornam amantes e depois mães
So mothers be good to your daughters too
Então mães, sejam boas com suas filhas também
Boys you can break
Com meninos você pode terminar
You’ll find out how much they can take
Você verá o quanto eles aguentam
Boys will be strong and
Os meninos serão fortes
Boys soldier on
Serão soldados
But boys would be gone
Mas nunca conseguirão viver sem o calor
without warmth from
do coração de uma mulher,
A woman’s good, good heart
On behalf of every man
Em nome de cada homem
Looking out for every girl
Que cuida de cada menina
You are the god and the weight of her world
Você será o deus e o peso do mundo delas
So fathers be good to your daughters,
Então pais, sejam bons com suas filhas,
Daughters will love like you do, yeah
As filhas os amarão como vocês as amam,
Girls become lovers who turn into mothers
Meninas se tornam amantes e depois mães
So mothers be good to your daughters too

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Cazuza ou Cora?

Saber viver

Não sei...
Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura...
Enquanto durar

Cora Coralina



Eu até quero crer nessas palavras da Cora Coralina. Eu quero amar sem limites, eu quero tocar o coração das pessoas, eu quero sentir a vida, quero que seja intensa, verdadeira.
"Saber viver": é como muitos chamam a união desses versos. Mas, tocar o coração das pessoas, é mesmo saber viver? Amar. O amor. Leva mesmo, sempre à pureza? Independente de quanto dure, o braço que envolve, o olhar que acaricia, o desejo que sacia, valem a pena?
Saber viver é muito mais do que simplesmente amar. Saber viver é saber quando amar e a quem amar. Porque, infelizmente, tocar o coração das pessoas envolve mais que apenas amor.
"Que as mentiras de amor não deixam cicatrizes". Deixam, sim, Maria Rita. Deixam, sim.


O mundo é um moinho
Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção,
o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés
Cazuza
E então, é Cazuza, ou é Cora?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Libra: vou ou não vou?

Libra é considerado o signo da justiça.
Da beleza.
Da arte.
Da música.
Enfim, uma viadagem só.
O que dá mais raiva neste signo é que o seu planeta regente é Vênus, o planeta do amor, que também rege touro. Por isto é tão fácil encontrar pessoas lindas de touro e libra. E libra persegue a beleza. O libriano pode morar debaixo da ponte, mas no cantinho vai ter um vidro de desodorante cheio de água com uma margarida, só para ele ter algo belo para olhar ao acordar.
É muito comum gente de libra cair nas garras de piriguetes lindas e gigolôs irresistíveis, porque ficam atrás do que é belo. E se outras pessoas também acham belo, piorou. É aquele típico rapaz que tem uma namorada bonita e a leva até no futebol, só para mostrá-la aos outros.
Libra também tem uma mania chata de seduzir Deus e o mundo e depois não sabe o que fazer com a vítima, então é muito comum que tenha muitos relacionamentos ao mesmo tempo, até que uma das vítimas perde a paciência e lhe mete a mão na cara (geralmente uma ariana ou leonina ensandecida).
E fica horas numa mesma questão:
"Mas se formos ao motel, não acordaremos cedo para comer o pastel da feira...''
"Mas se acordarmos cedo para comer o pastel, não iremos ao motel, e acho que precisamos transar...''
"Mas também, se formos a feira, não sei se é legal, porque você está de regime..."
"Mas também no motel tem tv, então poderíamos ver o Supercine..."
"Mas também..."
E segue a chatice que dá nos nervos.
E quando libra se decide, afe, dá-lhe romantismo melado. No meio do sexo o libriano quer parar e olhar nos seus olhos. E inventa de acariciar seu corpo com uma rosa. No meio de um jogo de baralho ele quer que você pare, porque a lua tá linda. No final da novela, ele resolve dizer que te ama. Coragem!!!
É muito comum librianos se casarem muito cedo, porque acharam que aquele amor em cima de uma roda gigante era para sempre.
É normal que se casem várias vezes.
É bom que fiquem ricos, porque terão muitas pensões para pagar.
Já a mulher libriana, mesmo pobre, estará envolvida com beleza, ou justiça.
Será a vendedora de cosméticos, de lingerie, de bijouteria, ou de tudo isto.
Será advogada ou cobradora do Serasa, ou cantora de cabaré, churrascaria, buffet infantil ou até de sucesso.
Mas serão charmosas, rômanticas e têm que tomar cuidado com rostinhos lindos, porque são o seu ponto fraco.
Academias de ginástica também são a sua praia.
Aviso de amigo: cuidado com pessoas de touro com ascendente em libra. Vão te fazer pastar muito. Evite.
E não se espante se a pessoa de libra te pedir um 'tempo' de manhã e a noite disser: "Eu te amo." Eles mudam de ideia assim como eu mudo de roupa. E são os que mais demoram para terminar um namoro. Chatooooooooooooooo.
Bofes de Libra: Sting, Eminem, Ralph Lauren, John Lennon, Bruce Springsteen, Michael Douglas, Pelé, Pavarotti.
Piriguetes de libra: Gwyneth Paltrow, Catherina Zeta Jones, Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Rita Hayworth, Gwen Stefani, Donna Karan, Monica Belucci e aquela bonitona que fez seu irmão largar familia e filhos e fugir para o interior.

sábado, 15 de agosto de 2009

Made to be. Eu vejo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, com habilidade pra dizer mais sim do que não. You want to be loved, so badly, for who you are and you're just waiting for the right person to show you that it's okay to rest in who you were made to be, and not who you are always trying to be.
for who you are
for who you are
for who you are
quem é você? quem você quer ser? por que você quer ser?
You clean before people come over, even though you are typically a mess. E quando você toma coragem para ser o que realmente é, você vai com tudo, com tanta força, com tanto orgulho, com tanto medo de ser discriminado, xingado, desprezado, que acaba merecendo discriminação, xingamento e desprezo. You really want to be admired for your heart. You want someone to see through the masks and love you for you. You wish you could see what it's like to be perfect, just for a day.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

My biggest weakness

Fiquei tão impressionada com a pontaria do tiro desse teste que resolvi publicar aqui:

Jealousy

You envy others, but you are also confident about yourself. But sometimes you wish you could be confident about yourself without the masks. You clean before people come over, even though you are typically a mess. You dress up or wear revealing clothes, show off your tan, tattoos, and body, because you feel like it will get attention and make you feel worth something. Sexiness is something you value, but you really want to be admired for your heart. You want someone to see through the masks and love you for you, but you sometimes don't know who that person is and you fear opening up to someone because you don't want to be hurt. You wish you could be like someone else, trade places just for a day, to see what it's like to be perfect. You like lists and getting things done, but you rarely finish them. You want to be loved, so badly, for who you are and you're just waiting for the right person to show you that it's okay to rest in who you were made to be, and not who you are always trying to be.
Want to take this quiz?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Exigências egoístas

O ser humano, egoísta que é (e eu já admiti, neste mesmo espaço, que também o sou - antes que alguém atire a primeira pedra), acredita piamente que "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Claro, porque aí ele automaticamente condena todas as pessoas que lhe chutaram de suas vidas. Que lhe causam rancor. Oh!
Antoine de Saint Exupéry, porém - coitado -, é esquecido quando o mesmo ser humano, ainda obviamente egoísta, jura que seu companheiro deve deixar seus interesses de lado para lhe dar atenção. Ou quando, do outro lado, jura que deve priorizar suas próprias ambições a despeito do tempo junto ao outro, ou em função do outro.
Afinal, porque é que as pessoas exigem tanto???

sábado, 8 de agosto de 2009

saudade, morena

bem, como vai você? levo assim, calado
de lado do que sonhei um dia
como se a alegria recolhesse a mão
pra não me alcançar

poderia até pensar que foi tudo sonho
ponho meu sapato novo e vou passear
sozinho, como der, eu vou até a beira
besteira qualquer nem choro mais
só levo a saudade morena
e é tudo que vale a pena

[sapato novo - los hermanos]

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão

Carlos Drummond de Andrade


Sábio Drummond...

Estatísticas da vida real

É, ou não é, ou não é, ou não é?
É!!!




segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Aqui não há fatos

Eu lá vou me meter a escrever de fatos... Eu não! Eu vou escrever de emoções.
É muito mais fácil, e mais seguro.
Fatos, informações, análises, são demasiadamente passíveis de críticas. Deixo isso para o meu trabalho. Ou quem sabe um outro espaço, voltado apenas para essa sorte de escritos.
Aqui eu quero é espairecer... soltar os monstros da minha alma... deixá-los livres por alguns momentos, para que voltem mais calmos para casa.
Aqui eu quero é gritar... escrever sem medo o que me angustia e não me importar com o que pensarão os outros... Afinal de contas, aqui eu posso usar minhas amigas metáforas... dizer tudo o que eu quero, e sair sem explicar nada. E ainda correr o risco de algum leitor se identificar com toda a minha confusão.
Que maravilha... como é bom o egoísmo, não é? Aqui eu quero sentar toda vez que não tiver com quem conversar... por que cargas d´água eu escreveria sobre política, economia, religião... aqui? Num espaço tão egoísta?
Feche a porta, diz o título, ali em cima. Feche a porta, mas só depois de entrar. Aqui tem pouca gente, e tudo é silêncio. Feche a porta, se quiser, e escute essas lamentações. Ninguém quer que a gente lá fora absorva tudo isso. Feche a porta, pois. As coisas do coração devem ser compartilhadas do lado de dentro; elas não dizem respeito ao mundo exterior: o tal mundo "real", o tal furioso.
Eu lá vou me meter a falar de assuntos passíveis de correção... Eu não! Eu falo de sentimentos, porque sentimento dá direito. Não há convenções sobre o que se deve ou não sentir, ou pelo menos não houve papéis assinados... provas contra mim.
Não... aqui eu vou ser egoísta mesmo, me perdoem... vou optar pelo mais fácil. Aqui eu só quero é me sentir segura.

Crianças veem, crianças fazem.

video

sábado, 1 de agosto de 2009

A dream

A dream, into where one cannot simply go back. Sleep back and continue to dream. It just finishes when you less expect. A dream, certainly. Because if you look rationally at it, you will see: it could not actually be real. It just couldn´t. A dream. A perfect situation, a perfect parfum, the perfect touch, the perfect form, the per-fect smile. And eyes. And all the hardness only a dream can have. and must have. Cause dreams have all that mistery, that beauty, all that difficulty, essential to make them true dreams. Oh, sweet dream. You just needed to be ended, right? After all, we cannot sleep forever.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

write

write to read, to listen, write to feel. write on paper, on note, on book, write once more. write, write, write. just because. write to kill. write to love. write to show. write to wait for a person to call. write... and write... to remember. and write even more to forget. about those scraps.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Por las calles de Santiago


Por las calles de Santiago el inolvidable
O prazer do imprevisto
do não visto.
Em Neruda o belo,
minimamente certo.
E nos comuns a felicidade de não ter passado
do cheiro de tinta fresca.
A oportunidade de escrever pela primeira vez
branco de neve, de não esbarrar no borrado.
Pelos risos em Santiago a vitalidade
acordar e ver a Cordilheira
A oportunidade de enxergar
com os olhos da montanha.
Novidades à visão, ao tato, ao paladar
Ao coração.
Pelas ruas de Santiago o prazer dos locos amigos
dos amores poco vividos.
La alegría de lo que se vivió
De lo mucho que fue poco, y de lo poco
que fue tanto.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Não Vale a Pena

Ficou difícil
Tudo aquilo, nada disso
Sobrou meu velho vício de sonhar
Pular de precipício em precipício
Ossos do ofício
Pagar pra ver o invisível
E depois enxergar
Que é uma pena
Mas você não vale a pena
Não vale uma fisgada dessa dor
Não cabe como rima de um poema
De tão pequena
Mas vai e vem e envenena
E me condena ao rancor
De repente, cai o nível
E eu me sinto uma imbecil
Repetindo, repetindo, repetindo
Como num disco riscado
O velho texto batido
Dos amantes mal-amados
Dos amores mal-vividos
E o terror de ser deixada
Cutucando, relembrando, reabrindo
A mesma velha ferida
E é pra não ter recaída
Que não me deixo esquecer
Que é uma pena
Mas você não vale a pena

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Possible

"I know you're out there.
I can feel you now.
I know that you're afraid...
You're afraid of change.
You don't know the future.

I'm here to show you a world.
A world without rules and controls,
without borders or boundaries.
A world where
anything
is possible."

Esse trecho é uma fala do Neo, no filme Matrix. Mas na realidade eu tive acesso a ele através de uma bolsa.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Além do Rio

Ninguém pode construir em teu lugar
as pontes que precisarás passar,
para atravessar o rio da vida -
ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números,
e pontes, e semideuses que se oferecerão
para levar-te além do rio;
mas isso te custaria a tua própria pessoa;
tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho
por onde só tu podes passar.
Onde leva? Não perguntes, segue-o.

Friedrich Wilhelm Nietzsche

Esse textículo do Nietzsche é interessante pois sutilmente nos entrega aquelas pessoas que muitas vezes nos parecem dar sempre o melhor conselho, as melhores e mais exatas palavras, parecem ter tudo sempre sob controle. Essas pessoas acabam por nos influenciar constantemente, seja indicando nossas futuras ações, seja coibindo possíveis outras. São os semideuses. Nossos semideuses.
Finalmente, quando já estamos habituados a não dar um passo sem consultar os nossos semideuses, temos a impressão de que dependemos deles para seguir adiante. A isso, então, chamamos de amor.
No final das contas, "existe no mundo um único caminho", para cada ser humando, "por onde só tu podes passar". E mesmo que duas pessoas que se amam de verdade consigam se reduzir a uma quanto estão no ápice de seu amor, ainda assim elas terão seus momentos a sós. E é nesses momentos que as vidas se diferenciam, e é por isso que só você pode passar pelo seu caminho.
Não se hipotecar, jamais... ou se perder.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Peroração, Marina.

Se há uma coisa que finalmente aprendi, depois de longos e duros três anos e alguns meses, é que é preciso saber finalizar. Mais do que isso: fechar com classe. Fazer uso da famosa palavra usada nos cursinhos preparatórios ao vestibular: a "peroração".

Pois de nada vale você escrever e escrever, viver e viver e, de repente, tchau. "Mas qual foi o sentido disso tudo? Por que, criatura, você disse todas essas abobrinhas? Qual a moral da história?" É isso. O segredo da boa redação é fechá-la de forma eficaz. Que tem eficácia, que produz efeito, que efetua o que promete ou o que se espera (da sua virtude).

Finalmente aprendi, senhores. Que é bobagem você saber levar uma situação/escrever um texto sem mancadas/repetição de palavras, se doando/colocando suas emoções, renovando/trazendo informações, se quando dá a hora do vamos ver... você tem uma ejaculação precoce. Termina sem terminar, age sem ter realmente intenção. As pessoas estavam acompanhando seu raciocínio e, de repente, você surpreende com uma atitude óbvia, inexata.

Ah, libertação. Chegou a hora de colocar em prática essa maravilhosa dica (que me deram de uma forma um tanto indiferente e arrogante, eu diria, mas da qual, humildemente, fiz bom proveito). Por isso (e coloco aqui toda minha intenção de agradecimento àquele que me instruiu), finalizei há exatamente um mês e um dia o que alguns amigos chamavam de loucura, outros de ilusão, outros de comodismo, de felicidade, de ignorância, pesadelo, amor, amizade, obsessão, afinidade. Eternidade.

Terminei. E perorei. Porque saí tranquila e em paz... que foi como entrei. Senhores, demorou, mas eu finalmente aprendi a lição mais importante da vida real. E a partir de agora o objetivo é superior: transferi-la para os meus escritos.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Tênis x Frescobol

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?'\ Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’
Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo...’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo\' não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’
O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...
A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis: ‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\'. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\'. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’
Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.
Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

(Alves, Rubem. O retorno e terno, p. 51.)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

De novo, não

Se um dia ou uma noite, um demônio se esgueirasse até você e, penetrando na sua mais solitária solidão, lhe dissesse: "Esta vida, da maneira como você vive agora e já viveu antes, você terá que vivê-la mais uma vez e outras inumeráveis vezes; e não haverá nada de novo nela, mas cada tormento e cada alegria e cada pensamento ou suspiro e cada coisa imensuravelmente pequena ou grande em sua vida, deverá retornar a você — tudo na mesma sucessão e seqüência..." Como não atirar-se ao chão, rangendo os dentes e amaldiçoando o demônio que assim lhe falou?
Nietzsche

Agradecimentos

Episódio 1 - dançando:
- Tô de olho... (pela 6ª vez)
- Oi?!
- Aguinha que é bom nada, né?

Episódio 2 - descansando:
- O que é que vocês duas aprontaram ontem que estão tão desanimadas?

Episódio 3:
- Cigarro?
- Não, obrigada.
- Hummmm, mas eu já vi você fumando...

Apenas para deixar meu muito obrigada aos que se preocupam tanto em cuidar da gente quando estamos precisando.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Blues da piedade

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Frejat/Cazuza

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Hoje é domingo

E hoje eu tive eu um dia de cão.
Dormi, comi e passei as horas andando de um lado para o outro no quintal. Vez ou outra mordia uma cenoura, olhava para o livro que estava lendo, fazia xixi, ligava e desligava a tv, arranhava o violão.
Deve ser duro ser cachorro. Imagine então ser um passarinho de estimação e ter uma vida de cão dentro de uma gaiola.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O albergue

Curitiba, 16.11.2008

O passante ruído musical que se fazia ouvir alto da rua às margens da meia noite, embalado pelas gargalhadas dos que não precisam se preocupar com o despertador no dia seguinte, não deixavam dúvidas de que o fim de semana chegara. Telefonemas e mensagens de texto davam vida ao aparelho de celular jogado à cama, que vibrava ao som das músicas selecionadas para acusar os que lhe procurassem.

Economizando ao máximo as palavras, ainda que delicadas, a dona do telefone ia, um a um, recusando os convites que chegavam. Entretanto, não sendo eles isolados, tampouco descartáveis, terminou por ceder, e escolheu uma roupa bonita.

Vestiu-se. Passou pela cozinha, passou pelos detalhes dos chamados no telefone, avaliou - desinteressada - os prós e os contras. "Peixe assado e camarões não é de todo mal." Balançada, mas não vencida, deu outras voltas pela casa, e finalmente retirou uma bandeja de coxinhas congeladas do freezer.

Outras ligações ainda interromperam a ceia simples e improvisada em frente à televisão, e foi após o cigarro digestivo que ela decidiu que a únicas companhias que desejava naquela noite eram as de seus moradores internos.

Vestiu o pijama e fechou a porta do quarto frio. Entrou nele e no albergue.

A síndica do local, conhecida como Consciência, sensível aos sinais da proprietária, convocaria a todos para uma reunião de emergência. Era hora de discutir o andamento das questões internas para o bem-estar do corpo e para a boa convivência ali dentro.

Iniciando a conversa, Consciência não economizou em acusações, tratando de forma incisiva o problema núcleo que assolava os moradores no momento: o desentendimento nas questões afetivas.

Seu alvo principal foi a Alma. Chamou-a de medrosa, fraca e perdedora. E ela quis sentir-se triste. Era covarde, de fato, e automaticamente passou a procurar exemplos que justificassem a razão da Consciência. Encontrou.

Lembrou-se de ápices em que a síndica lhe orientara: “Vai, menina, vai! Parte ao encontro dessas mentes ricas que te querem perto. Isso lhe fará crescer.”, e em que a Alma debilmente insistira no não. “Não sou familiar a elas. Irão me desprezar quando passarem a me conhecer de verdade. E eu preciso me sentir bem.” E seguiram desta forma seus pensamentos. Veio-lhe à mente a noite anterior, o ciúme doentio e o dia em que deixou seu amor em prantos e partiu. Entendeu os motivos da “fuga”. Perplexa, percebeu seu medo. Medo de fracassar.

Diferente do que podemos imaginar, a Consciência se revirava de angústia na medida em que a Alma assumia seus erros. Era a prova de que ela própria era, na verdade, uma impostora. Idealista, arrogante, julgava e martelava os mais ínfimos defeitos do próximo, aguardando, do alto de sua falsa superioridade, o dia em que pudesse livrar-se deles.

A Alma sentiu-se perdida. Era ingênua e pura, acreditara na síndica, sempre tão segura de si. Mas o abismo da insegurança de repente lhe engolia. As profecias tão iluminadas, tão defendidas pela Consciência, derretiam-se.
Escurecia. Nostalgia.

Eis que uma terceira moradora do albergue, de comportamento carente e sentimental, já atingida pela tristeza da Alma, se aproxima do Orgulho, buscando um mimo. Mas ele não queria deixar transparecer seus desejos e a repudiou imediatamente. Desolada, buscou no criado mudo o aparelho celular, tão inútil até então naquela noite. Nele havia marcas de momentos estranhos. Felizes e tristes, próximos e distantes. Havia também o carinho de que ela tanto necessitava.

A Alma viu a cena e então se acalmou. A Consciência também silenciou, num raro instante de emoção. A Carência derreteu-se... E o Orgulho armou-se.

Todavia, a paz (de certa forma tensa) durou pouco. Foi quebrada quando outro morador inesperadamente tomou o celular das mãos da vizinha e iniciou a ligação proibida! Logo a síndica gritou que aquele ato não era permitido dentro das limitações da hospedaria. A situação, entretanto, divertia o Id, que a provocara, e ele ria, realizado por sua iniciativa tão sincera.

Finalmente o Superego chegou e conseguiu retirar o aparelho das mãos do menino bobo e interrompeu a possibilidade de... Bom, isso não se sabe. O que se sabe é apenas o que os moradores acreditam.

A Alma pensa que seria desprezada. A Consciência que, quando solicitada, agiria de forma fria; defenderia o coração com as armas que tivesse disponíveis, como de costume. Para o Superego bastava o fato de ter cumprido seu papel. A Carência, coitada, via naquilo uma esperança... mas sentia muito medo de não ser correspondida. O Orgulho relaxava satisfeito, afinal os sentimentos do albergue não seriam expostos. E o Id ensurdecia os ouvidos dos outros. Gritava aos quatro cantos que amavam aquela pessoa, que sabiam que não conseguiriam viver sem ela, que aquele lugar era uma zona, que tudo estava errado, que longe dela, que não havia, que vida mesmo, que era com ela, que aquela boca, aqueles cabelos, aquele sorriso, tinham que ser deles, que tinha de ser agora, que tinha de ser para sempre.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Qual é o momento de "deixar ir"?

Se é mesmo verdade o que nos contam os roteiristas dos filmes de amor e os poetas, cada um de nós terá um grande amor. E esse amor será eterno.
Meu medo é o de não perceber meu grande amor. Deixá-lo ir sem ter lutado o suficiente, achando que outro ainda virá.
Ou, ao contrário, entregar o papel à pessoa errada, me agarrar à ela, e não perceber que, na verdade, meu grande amor está passando logo ao lado. E indo embora, sem mim.