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quarta-feira, 26 de abril de 2017

O desafio de não julgar

A gente não escolhe onde nasce. Tem quem saia da maternidade quentinho e confortável. Tem quem venha ao mundo em condições precárias. No corredor de um hospital do SUS, sem pai, sem mãe, sem família. Sem ter uma casa para ir. Sem perspectiva. Para algumas pessoas as primeiras lembranças  da infância são de amor. Para outras, são de violência. E, carregando cada um a sua cruz, muitos conseguem chegar a fase adulta. 

Chegamos aqui e aí vira cada um por si. Atribuindo a nós mesmos o poder de juízes cegos, esquecemos que cada um tem uma história, e condenamos. Medimos as pessoas, sem medo, com a mesma régua. Classificamos mendigos de folgados, sem-terras de vagabundos e os que lutam pelos direitos das minorias de baderneiros inúteis. Sabemos também, é claro, que toda pessoa que tem muito dinheiro é podre, que todo político é corrupto e que quem não concorda conosco, bem, naturalmente é burro. Cotas para negros, demarcações de terras indígenas, reivindicações feministas? Privilégio. Esquecemos a história; deliberadamente ignoramos o contexto. Antes de pensar, apontamos o dedo. Quem é de direita é insensível. Quem é de esquerda é irracional.

Nossa empatia com as experiências do outro, as perspectivas do outro, a defesa que o outro desenvolveu para poder sobreviver, é praticamente zero. Já paramos para pensar o que aconteceu na nossa vida para sermos quem somos hoje? Afinal, como é que o outro vê o mundo? Como é que ele sente as perdas? Como é que ele reage a um ataque?

O Tsedaka Challenge é uma provocação que convida o desafiado a doar - para uma família necessitada ou uma organização sem fins lucrativos - 1 real para cada like recebido em um post e 2 reais para cada comentário. Ele é uma proposta bonita que pode ter um impacto pequeno, caso uma pessoa só faça, mas que me fez pensar. O que é que está ao meu alcance? De quanta coisa eu estou disposta a abrir mão para fazer a mínima diferença que seja num mundo que é completamente desigual? Qual o tamanho da minha gratidão pelo que me foi dado sem critério algum quando nasci?

Nós, que viemos ao mundo quentinhos e confortáveis, somos muitos. E vemos, todos os dias, um imenso desequilíbrio ao nosso redor. Ele não acontece porque as pessoas são preguiçosas, ainda que a preguiça exista. Não acontece porque os cidadãos menos favorecidos não lutam ou não matam um leão por dia, ainda que haja exceções. Não acontece porque as pessoas não são heroínas, como muitos de nós nos consideramos ser. O desequilíbrio existe porque não chegamos nesse mundo de forma igual e, ainda assim, é cada um por si.

Mais do que me encorajar a sair da inércia e efetivamente ajudar alguém, o desafio me fez pensar. E que ele faça todos nós pensarmos. A vida é uma só, ela passa rápido e a felicidade fica, sim, mais fácil quando temos tudo isso no que nos agarramos com medo de passar perrengue, mas não é nessas coisas que reside sua essência. E além das diferenças sociais, existem as diferenças emocionais. E nós temos o tempo pra compartilhar, temos as boas ideias, e temos o amor. 

Isso aqui é só um monte de palavras que se acumularam na minha cabeça quando fui desafiada. E já que resolvi escrever, vai também uma espécie de oração. Que mais pessoas alimentem a empatia em vez do julgamento descontextualizado. Que nasçam empreendedores sociais, e que eles acreditem que é possível, sim, tornar o mundo mais equilibrado, ainda que dentro do capitalismo. Que mais Tsedaka Challenges sejam lançados por aí. Que a gente julgue menos e se ajude mais.


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