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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Dona Felicidade

A felicidade a ela pertencia. Dominava o dom da bem-aventurança, uma vez que era senhora de si, de seus sentimentos e de sua liberdade. Soberana das emoções e violenta na existência, esbanjava o inabitual. Nada parecia lhe desconcertar. Sua solidão era permanentemente provisória, os segundos antes de um beijo sempre tomados por rituais de cortejo. Suas mãos não conheciam a escassez. Nunca estava só. A confiança em seus planos lhe asseguravam distração. Mais do que isso: não lhe contentava o comedimento, queria mais. Para ela não havia noite sem manhã, copo ou coração vazios, nem vida, fosse esta desprovida de contentamento. 

Procurei evitar que se aproximasse; a melancolia, minha cravejada matriz, parecia enciumada. No entanto, almas desamarradas sempre me impressionaram - raras e elegantes que são - e não resisti. Deixei que a curiosidade direcionasse meus olhos. Tratei-a com amabilidade agressiva, procurando preservar a indiferença, mãe-protetora. Beijei sem pretensão. Contudo, senti. Deus, como senti. E ela avançou, obedecendo sua naturezaFeito um posseiro, se instalou. Invadiu meu espaço pessoal, meu apartamento, minha cama. Ocupou tudo, até mesmo meu vazio. A soberba me impediu de dizer não. Sua luz me cegava e seduzia, e lhe convidei a entrar, a um lugar de onde não sairia mais.

Sorriso largo, violão, um só sapato, café-que-deixei-esfriar, pão-de-queijo-que-muito-cedo-não-dá, vida, brasa, poesia, mar, flores, dor, amor, desejo, olhos, boca, mãos, fotografias, Rio, aliança improvisada, Ilha, areia misturada, Buenos Aires, anéis, Inhotim, arte, São Luiz, cavalos, Trancoso, paz. Me levou para conhecer o lado da vida em que, com força, se misturam músicas, texturas e sabores.

Tinha pressa. A incerteza do amanhã lhe atirava, e eu queria mais. Já havia esquecido de me importar com a vida; ela me resgatara. Fez com que eu tivesse vontade de subir a montanha novamente, dessa vez ao seu lado. Segurei sua mão, amei novamente. Em alguns momentos fiquei para trás, tinha medo de chegar. Noutros corri, tinha medo de perder. Depois de muitas pedras escorregadias, quedas e água em abundância, enfim, chegamos.

A vista lá de cima era linda. Estonteante mesmo. A temperatura era perfeita e eu sentia o vento bater em meu rosto. Havia árvores de todos os tamanhos, rios muito azuis, flores coloridas, pessoas queridas, momentos que me entusiasmavam e me invocavam. Sorri, satisfeita, e olhei para o lado. Ela estava ali comigo. Também sorria. Seus olhos brilhavam e me encaravam profundamente. E então, adquirindo uma expressão serena e decidida, anunciou:

- Se prepare. Quando você voltar de viagem, vou te pedir em casamento.

Por um segundo, senti minha alma em queda livre. Que delícia de sensação! Pouco durou. De súbito, escorreguei, e o sobressalto me fez tremer. Estávamos no topo de uma montanha, era um precipício que havia ali. Bonito? Naturalmente. Um sonho? Claro que sim. Mas isso não o isentava de sua real condição: um despenhadeiro. Um abismo. A imensidão. O caminho do baque! Vertigem. 

Sem coragem para encarar minha própria fraqueza, me encolhi. "Vamos voltar", disse o covarde que havia em mim. "Quer se espatifar novamente?". A resposta era não. De jeito nenhum. Mas e tudo aquilo? Eu teria de virar as costas a todas as sensações que estariam por vir. Poderia estar negando a felicidade. Poderia estar negando a dor. Tudo parecia bom como estava, era mesmo necessário ir além? Não. Não a qualquer custo. E então, consternada, retrocedi. 

Me retirei para dentro da montanha. Escureceu. A dona da felicidade me seguiu, confusa e, notando meu ar de desdém - entediante escudo -, chorou. Quis me puxar, resisti. Quis lutar, deixei que ganhasse. Quis fugir, deixei que partisse. As pedras escorregadias que encontrávamos passaram de pequenos obstáculos a bloqueios robustos. Salguei a água que garantia nossa sobrevivência. Debilitadas, não conseguíamos mais alcançar nossas mãos. Pedi para sair, não concordou. Teimei, me agrediu. E já fechada demais para conseguir voltar, fugi. 

Lá fora encontrei novamente o desalento. A tristeza, afinal. Distante da euforia, em casa novamente eu estava. O sofrimento, esse eu conhecia bem: desde que não te movas, ele te poupa. Se não ousares amar demais, viver demais, afrontar demais, a tristeza se conserva mansa, quase imperceptível. Resignada no conforto da dor que pouco incomoda (apenas existe), deixei que a felicidade partisse. Foi com ela o extraordinário, a liberdade, a presença. Retornou o vazio, a segurança e o tédio. De onde a senhora da alegria se instalou, nunca mais sairá. Eu, todavia, comigo mesma terei de lidar. Com minha ciumenta melancolia, amante do medo. Que fortificou meus muros, me tirou a luz.


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