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quinta-feira, 20 de julho de 2017

A quantos adeus ele resiste?

O “Adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

Passaram tempos sec’los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
…Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!...”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Castro Alves


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Poesia terapia

Sempre fui apaixonada por poesia. Desde que me entendo por gente mesmo. Mal sabia pronunciar palavras, já queria atenção para recitar "Batatinha quando nasce", daquele jeitinho errado, adaptado para as crianças.

Existem muitas fontes que dão diferentes versões sobre esses versos. Uma, em particular, me pareceu bastante verossímil e explica que a poesia original foi escrita em alusão aos assédios de patrões sobre mucamas na época da escravidão. Segundo a fonte, ela foi registrada em 1885 por Silvio Romero, conforme segue:

Batatinha quando nasce
Deita rama pelo chão
Mulatinha quando deita
Bota a mão no coração

Completamente alheia a tudo isso, a poesia era então, para mim, sinônimo de alegria, amor e momentos em família. De certa forma, ela era segurança e empoderamento.

Veio então a adolescência e toda sua intensidade. Ansiedade, confusão, pensamentos e sentimentos demais a serem administrados por uma pessoa que se debatia bastante para entender o mundo. Nessa época comprei um caderno daqueles grandes de espiral e fui depositando nele as poesias que fui descobrindo. Algumas foram encontradas e inseridas por amigas, outras por mim, e assim fui colecionando. 

Eu vivia para cima e para baixo com aquele caderno. Tenho uma lembrança clara de estar com o trambolhinho num dos vários almoços semanais na casa da minha nona e, vez ou outra, fugir para ler uma coisinha ou outra que me trouxesse paz. Novamente a poesia me fazia sentir empoderada. Naquelas páginas eu encontrava junções de palavras cadentes que soavam como música, compreensão e empatia. O consolo que eu precisava para a forma intensa com que vivia tudo.

Algumas poesias eu li tantas vezes que decorei. E até hoje, dependendo da situação, como numa sessão de auto terapia, lembro das mais lidas e as recito mentalmente até o fim. Como essa aqui:

Ah, tormento que eu não posso confessar...
O que eu escrevo é a verdade, eu não minto,
eu declaro tudo aquilo que sinto,
e é a outra que teus lábios vão beijar...

Sei que quanto mais verdade tem no escrito,
mais distante eu te ponho dos meus braços,
pois desenho o paralelo de dois traços
que na certa vão perder-se no infinito...

Estes versos feitos pra te emocionar
Justificam todo o amor que tens por ela
e as carícias que esses dois amantes trocam.

E eu te excito, sem que venhas a notar
que esses lábios que tu beijas são os dela,
mas são minhas as palavras que te tocam.

Pedro Bandeira


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Quem Me Leva os Meus Fantasmas



De que serve ter o mapa se o fim está traçado
De que serve a terra à vista se o barco está parado
De que serve ter a chave se a porta está aberta
De que servem as palavras se a casa está deserta

sábado, 3 de junho de 2017

Tempo

Um átimo bastou pra conceber
O beijo amanhecido no cerrado
Braços pintados, ansiosos, a tremer
Me envolveram o coração já conquistado.

A magia então por verbo se desfez
E a inconstância condenou a desgarrado
Se por vias de mistério o amor se fez
Pelas cordas da distância foi atado.

Tempo instável, tempo vil, discricionário
Que quando ela está longe me consome lento
Que quando pousa em meu abraço é vento

Pare um pouco - ela chegou, silêncio:
Se amar é um ato revolucionário
Dê uma brecha pr'eu lutar por esse alento.


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
Da neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro... e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões...

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doída e fremente!
________

Espanca mais, Florbela.


sábado, 20 de maio de 2017

Sobre sonhos



Steven Spielberg disse que nossos sonhos são sussurros e que devemos prestar muita atenção neles. Eu nunca tinha pensado dessa forma. A sociedade não pensa dessa forma. As vozes estão sempre lá, desde a nossa infância. Contudo, com exceção dessa etapa de nossa vida, em que nada parece impossível, costumamos ignorar tais murmúrios. As crianças os escutam e os repetem em voz alta, sem medo. E então veem que os adultos riem. Acham graça na falta de noção. Chega então a adolescência e o ser humano se revolta com o choque de realidade. Sofre desilusão. Os sonhos não são nem bonitinhos mais. São divagação. Perda de tempo. Não botam a mesa. E os sussurros ficam cada vez mais baixos.  

Não morrem, todavia. Porém, a essa altura, os motivos pelos quais não damos atenção a eles são incontáveis. Seu conteúdo pode já ser claramente bizarro. Arrogante. As ideias talvez pareçam, de fato, inatingíveis. Distantes, muito distantes de reles mortais como nós. Mal deixamos que o clamor tome conta pois, o que as pessoas diriam? Talvez rissem, como quando éramos criança. Dar atenção a esse ruído só traria frustração. Além do mais, são sussurros. Ora, se fosse algo realmente seguro para se fazer, estaria gritando em nossas cabeças. Seria uma voz firme, decidida. E assim ignoramos, mais uma vez, nossos sonhos. 

Eu tinha um sussurro. O de criança era ser atriz a cantora. Mantive por muito tempo. Mas passou, hoje sou feliz alimentando-os apenas como hobby. Felizmente havia outro. Este me dizia que eu precisava fazer algo grande. Trazer, de alguma forma, uma mudança positiva ao mundo. Que eu deveria encontrar uma forma de causar algum impacto, deixar um legado, mudar a vida de alguém, ou de um grupo de pessoas. Em que circunstância? Não sei. Em que sentido? Também não. Mas eu escutei essa voz, há muito tempo, e ela fez cócegas no meu coração. Sua grandeza me assustava. Me deixava perdida. Timidamente, no entanto, me sentia inspirada. 

Cortei da minha lista de potenciais cursos de bacharelado todas as opções que pareciam restringir meus horizontes ou meios de ação. Estudei Relações Internacionais. Parecia vasto. De alguma forma, cheguei ao ambiente corporativo e, depois, à filantropia. Nela encontrei o que fazia meus olhos brilharem. A transformação social definitivamente me cativou. Guardei em meu coração tudo o que senti naquele período e segui. Experimentei o outro lado. O lado de quem não precisa pedir. O lado de quem é demandado e manda. De quem pode tudo, acessa tudo e não precisa de ajuda. Percebi um desequilíbrio. Interpretei como falha. 

Em paralelo a isso acompanhei o surgimento de uma linhagem de empresas que não se assemelha em nada às grandes corporações ou aos impérios familiares. As startups me fizeram acreditar na emergência de potências a despeito de heranças. Fui tomada pela esperança de transformação social dentro de um sistema capitalista que, por sua natureza, cultiva a desigualdade. Nasceram os conceitos de empreendedorismo social e disrupção e, ali, os sussurros, as cócegas e aquele sentimento que guardei se encontraram novamente.

Estudar Negócios Digitais tem colocado meus pés no chão. Não há, contudo, uma aula em que eu não force minha mente a buscar dores que se relacionem tanto com quem tem o poder, quanto com quem precisa dele. Esse é o maior desafio. A experiência que tive na filantropia me mostrou o quanto é árduo ter que implorar para fazer o bem. A caminhada no governo deixou claras as grandes possibilidades que existem, soltas. E o setor privado, sóbrio, sabe que é preciso ter lucro para se manter vivo. A chave, que eu ainda não encontrei, poderia estar na conexão, gatilho e adubagem desses três conceitos, orientados a curar uma dor. 

É possível que o caminho não seja esse. Talvez minha estrada tenha desvios ou seja mais comprida do que imaginei. Nunca me senti tão atraída pela história das mulheres e seus mais profundos desafios. Faz cócegas no coração também. Pode ser este o local da dor que tenho tentado identificar. Não sei. Mas eu sei que não posso parar. Meu sonho não grita na minha cara, mas ele continua sussurrando. 

E escrever tudo isso aqui é uma forma de dizer que, se você pode se beneficiar do meu sonho, talvez eu possa me beneficiar do seu. Assim como Oscar Wilde, eu acredito que se as pessoas vivessem sua vida plenamente, dando forma a cada sentimento, expressão e pensamento, realidade a cada sonho, o mundo usufuiria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helênico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helênico.

Tá aí a transcrição da breve - mas intensa - aula de vida dada pelo Spielberg. Inspire-se:

Quando você tem um sonho, nem sempre ele vem pra você gritando na sua cara: "Isso é quem você é! Isso é o que você tem que ser pelo resto da sua vida!" Às vezes o sonho quase sussurra. E eu sempre disse aos meus filhos: "A coisa mais difícil de se ouvir é a sua intuição, são seus instintos humanos. Eles sempre sussurram, nunca gritam. Muito difícil de ouvir." Então você tem que estar pronto, todos os dias da sua vida, para ouvir os sussurros no seu ouvido. E se você ouvir os sussurros, e isso fizer cócegas no seu coração, e é algo que você acha que quer fazer pelo resto da sua vida, então isso será o que você vai fazer pelo resto da sua vida e nós seremos beneficiados por tudo o que você fizer.  

quarta-feira, 17 de maio de 2017

One Art



The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Elizabeth Bishop

Que soco no estômago, mulher. 
Que sensação de asfixia a cada frase. 
Que ritmo. Que entrega (Write it!). 
Que apunhalada esse final.
Quanta verdade. 
A arte de perder é um baita de um mistério.
_____

Tradução aqui.

sábado, 13 de maio de 2017

Não te amo

No criado mudo estava este livro, que resolvi folhear quando acordei. Lendo as poesias de Neruda fica clara a grandeza do cara, que foi reconhecido por meio do Nobel de Literatura, em 1971. 

Essa que vou postar escolhi por alguns motivos, entre eles o fato de que em algum momento eu sublinhei as duas últimas estrofes e, agora, lendo novamente, as palavras - ainda que não exatamente as mesmas ou no mesmo contexto - me tocaram mais uma vez: 

NÃO TE AMO como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

Cem Sonetos de Amor, Pablo Neruda


sexta-feira, 12 de maio de 2017

A preciosa

Autoestima não tem nada a ver com arrogância. Pelo contrário. A autoestima está tão ligada ao amor como a arrogância à insegurança. Quem está inseguro tende a se proteger. Qual é a melhor defesa? O ataque (agressivo, passivo-agressivo, a outrem e/ou a si mesmo). Já os que se amam não sentem necessidade de se colocar artificialmente acima de ninguém, uma vez que não têm a sensação de estar abaixo. Também não permitem que outros - ou que eles mesmos - lhe maltratem, pois sabem seu valor. 

A autoestima é preciosa. Ela é a mais pura expressão de amor. O amor que nos deixa confortáveis o suficiente para amar os outros e, mais importante ainda, para ser amados. O amor que nos deixa em paz o suficiente para promover a paz. O amor que nos deixa fortes o suficiente para suportar a dor. O que faz com que tenhamos coragem de trazer à tona nossas maiores vergonhas, medos e defeitos, sem despencar por isso. É o que nos mantém seguros sob uma chuva de críticas, sem perder a humildade. O amor que nos torna resilientes não é qualquer amor, é o amor próprio.

Porque autoestima alta não faz com que nos tornemos ignorantes ao fato de que estamos em constante evolução. Só nos dá tranquilidade para saber que não somos obrigados a saber tudo agora, já. Nos dá sossego para dar cada passo no nosso ritmo. Afinal, não somos obrigados a ser quem quiseram que fôssemos. Não somos obrigados a não sentir, não somos obrigados a sentir. Não somos obrigados a corresponder expectativas que não fomos nós que criamos. O amor próprio nos dá a clareza de que somos únicos e, sendo assim, livres.

Autoestima é isso. Liberdade, paz e força. É por isso que se alguém quiser acabar com você, o caminho mais fácil será acabar com a sua autoestima. 

Não deixe que ninguém acabe com você. Cuide bem dela.


p.s.: meu maior pesadelo virou realidade e esse blog está começando a lembrar um livro do Paulo Coelho? Por favor, me chacoalhem.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Dez anos de caos e paz

Esse ano, em setembro, vai fazer dez anos que escrevo aqui. Nessa espécie de diário aberto ao público. 

Comecei a escrever nele por um motivo muito simples: falta de ar. Eu estava sufocada. De amor. Era meu primeiro contato com ele. E, asfixiada também de dor - no auge dos meus 20 anos - acho que escrever e publicar me dava, além da sensação de alívio de colocar os sentimentos para fora, a esperança de algum consolo. Eventualmente uma alma virtual por ali vagante poderia se identificar com meu desespero e compartilhar um pouco de benevolência e conforto.

Se a tática era mesmo essa, deu certo. Relendo os poucos comentários da época senti, de fato, bastante carinho. Saboreei todos sorrindo e interagi com eles na minha mente. Então me dei conta de que quase nenhum recebeu resposta. Por que será? Forçando um pouco a mente, cheguei à conclusão de que, provavelmente, eu fazia isso por três motivos principais:

1. Vergonha: eu não queria que as pessoas percebessem minha carência. Na minha cabeça, portanto, ignorar poderia fazê-las pensar que eu não estava nem aí para os comentários. Que queria apenas escrever, sem expectativas de retorno. 

2. Insegurança: minha autoestima era tão, mas tão baixa, que eu tinha medo que as mensagens cessassem caso eu respondesse. Sim, eu tinha certeza de que qualquer coisa que eu fizesse, daria merda.

3. Obsessão: nada me preenchia, fora minha obsessão. Eu poderia estar rodeada de possíveis amores, amigos que me quisessem bem ou familiares que cuidassem de mim. Ainda assim, eu sentiria falta daquela determinada criatura, e só dela. A solidão era tão grande que toda e qualquer explosão de amor voltada a mim seria vista, na melhor das hipóteses, como... fofa. Por mais triste que isso seja.


Enfim, reli vários posts e encontrei uma menina assim, quebradinha. Tentativas de escritos que mais pareciam fluxos de consciência, poesias tristes, músicas de lamento e, entre um pico de depressão e outro, publicações super felizes e animadas. Hoje é perceptível a necessidade que eu estava de uma forcinha profissional. Apoio esse que claramente deveria ter procurado, mas não o fiz. 

Felizmente houve evolução nos posts. Não foi tão rápido mas, dez anos depois, eles estão bem mais objetivos, organizados, claros e firmes. Sinto orgulho ao ver que hoje consigo compreender melhor o que se passa dentro de mim e, assim, poder compreender e, eventualmente, até ajudar, quem está a minha volta, estabelecendo relações mais maduras e positivas.

Ainda há dor, é claro. Muitas decepções, inseguranças e até pequenas obsessões. Mais amenas, no entanto. A ansiedade diminuiu bruscamente. A inconstância também. Estou mais segura de quem sou, com menos medo de ser essa pessoa, de enfrentar as consequências inerentes a esse fato. E também de desfrutar, sem culpa, as delícias singulares a ele. Sentir a paz que construí (não sozinha) ao longo desses dez anos me dá estrutura emocional para tentar transmitir ela adiante. E eu estou muito animada para isso.

Foi gostosa essa viagem. 

Te vejo aos 40, Marina. Vê se não decepciona nessa próxima década.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O átimo

Foi ali
Entre as rochas, os galhos e a chuva
Entre os anjos, os arcanjos e as forças obscuras
Me despiu violentamente com os olhos

Me atingiu
Paralisou, desconcertou, acendeu
Obrigou-me a conter a alma, impetuosa, que saía
Querendo mais, sabendo menos, ficando pouco, sentindo

Forte
Feito a miragem que, ao surgir de repente, te emudece
Feito a água que, ao vir do alto, rasga, fere
Feito o céu que, rarefeito e onipresente, te persegue.




quarta-feira, 26 de abril de 2017

O desafio de não julgar

A gente não escolhe onde nasce. Tem quem saia da maternidade quentinho e confortável. Tem quem venha ao mundo em condições precárias. No corredor de um hospital do SUS, sem pai, sem mãe, sem família. Sem ter uma casa para ir. Sem perspectiva. Para algumas pessoas as primeiras lembranças  da infância são de amor. Para outras, são de violência. E, carregando cada um a sua cruz, muitos conseguem chegar a fase adulta. 

Chegamos aqui e aí vira cada um por si. Atribuindo a nós mesmos o poder de juízes cegos, esquecemos que cada um tem uma história, e condenamos. Medimos as pessoas, sem medo, com a mesma régua. Classificamos mendigos de folgados, sem-terras de vagabundos e os que lutam pelos direitos das minorias de baderneiros inúteis. Sabemos também, é claro, que toda pessoa que tem muito dinheiro é podre, que todo político é corrupto e que quem não concorda conosco, bem, naturalmente é burro. Cotas para negros, demarcações de terras indígenas, reivindicações feministas? Privilégio. Esquecemos a história; deliberadamente ignoramos o contexto. Antes de pensar, apontamos o dedo. Quem é de direita é insensível. Quem é de esquerda é irracional.

Nossa empatia com as experiências do outro, as perspectivas do outro, a defesa que o outro desenvolveu para poder sobreviver, é praticamente zero. Já paramos para pensar o que aconteceu na nossa vida para sermos quem somos hoje? Afinal, como é que o outro vê o mundo? Como é que ele sente as perdas? Como é que ele reage a um ataque?

O Tsedaka Challenge é uma provocação que convida o desafiado a doar - para uma família necessitada ou uma organização sem fins lucrativos - 1 real para cada like recebido em um post e 2 reais para cada comentário. Ele é uma proposta bonita que pode ter um impacto pequeno, caso uma pessoa só faça, mas que me fez pensar. O que é que está ao meu alcance? De quanta coisa eu estou disposta a abrir mão para fazer a mínima diferença que seja num mundo que é completamente desigual? Qual o tamanho da minha gratidão pelo que me foi dado sem critério algum quando nasci?

Nós, que viemos ao mundo quentinhos e confortáveis, somos muitos. E vemos, todos os dias, um imenso desequilíbrio ao nosso redor. Ele não acontece porque as pessoas são preguiçosas, ainda que a preguiça exista. Não acontece porque os cidadãos menos favorecidos não lutam ou não matam um leão por dia, ainda que haja exceções. Não acontece porque as pessoas não são heroínas, como muitos de nós nos consideramos ser. O desequilíbrio existe porque não chegamos nesse mundo de forma igual e, ainda assim, é cada um por si.

Mais do que me encorajar a sair da inércia e efetivamente ajudar alguém, o desafio me fez pensar. E que ele faça todos nós pensarmos. A vida é uma só, ela passa rápido e a felicidade fica, sim, mais fácil quando temos tudo isso no que nos agarramos com medo de passar perrengue, mas não é nessas coisas que reside sua essência. E além das diferenças sociais, existem as diferenças emocionais. E nós temos o tempo pra compartilhar, temos as boas ideias, e temos o amor. 

Isso aqui é só um monte de palavras que se acumularam na minha cabeça quando fui desafiada. E já que resolvi escrever, vai também uma espécie de oração. Que mais pessoas alimentem a empatia em vez do julgamento descontextualizado. Que nasçam empreendedores sociais, e que eles acreditem que é possível, sim, tornar o mundo mais equilibrado, ainda que dentro do capitalismo. Que mais Tsedaka Challenges sejam lançados por aí. Que a gente julgue menos e se ajude mais.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Por que Juliana Paes não deveria ter criticado os supostos 'excessos' do feminismo

Por uma simples razão: ela não entendeu o que é o feminismo.

Quando essa notícia invadiu minha timeline pela primeira vez, pensei: ai, deixa. Alguns momentos depois, porém, uma amiga endossou a postagem. Foi quando resolvi ler a matéria.

"Somos tão competentes quanto os homens, mas não iguais." 

Previsível, pensei. Costumo chamar esse posicionamento de "convicção-zona-de-conforto". Identificamos tal arquétipo de crença nos casos em que o sujeito até tem uma posição, sim, mas superficial e, por isso, normalmente, simpática. Em outras palavras: Juliana foi neutra. Agradou a homens e mulheres que não querem se indispor com o feminismo, nem com o machismo, pois não têm interesse em entender a coisa toda de forma mais profunda. Porque o feminismo é polêmico, né. Ser feminista é polêmico. Ser anti-feminista nos dias de hoje, convenhamos, também o é. Portanto, por que não nos aninharmos no "limbo" ideológico? Claro! Ele é quentinho! E gera menos comentários negativos.

Bom, vamos ao texto da nossa poderosa:

"Existe uma linha do feminismo com a qual eu não concordo muito. Acho errado esse desejo de igualdade com os homens a qualquer custo. Somos tão competentes e valiosas como eles, mas não iguais. A mulher precisa de mais tempo para se recuperar de uma gravidez, e há outras questões que permeiam nosso universo. A sensibilidade, o lúdico, o caminho da ponderação, o afeto nas relações de trabalho... Tudo que faz parte do universo feminino e matriarcal deve ser respeitado"

Concordo. Peço licença e ajuda às mulheres que lutam pela igualdade de gêneros para tanto. Ainda estou construindo meu conhecimento e todos os dias aprendo alguma coisa. Mas sei que somos tão competentes e valiosas como os homens. Não penso que isso seja uma questão. E de fato, não somos iguais a eles. Não temos barba, não temos tantos pêlos no corpo, engravidamos, temos hormônios e uma estrutura biológica diferente. Enfim. Diferenças físicas. Palpáveis. Concordamos nisso. Acontece que não é desse tipo de igualdade que o feminismo trata, e é aí que entra a superficialidade dos comentários da Srta. Paes.

A igualdade da qual trata o feminismo é a igualdade de direitos e a extinção das obrigações sociais. Não vou entrar em questões que se estendam além da aparência hoje pois foi praticamente só nesse quesito que a Juliana se pautou para criticar o movimento. Outro dia posso escrever sobre como a obsessão pela aparência feminina pode se desdobrar em muitos problemas, como a objetificação, o abuso e a violência extrema.

Mas voltando à preservação do universo feminino. As feministas não querem acabar com o universo feminino. O lúdico é lindo! A ponderação é maravilhosa! O afeto cura. Elas não querem que todas as mulheres deixem de engravidar, sejam menos sensíveis ou passem a ter pêlos por todo o corpo. O que elas querem é que as mulheres possam escolher (enfatizando novamente a palavra possam, bem diferente da palavra devam) o que querem ser ou fazer de suas vidas e seus corpos.

O feminismo luta, argumenta e propõe mudanças, não para impor alguma coisa a alguém. Pelo contrário, a ideia é justamente despressurizar. O intuito é que as mulheres possam ter seus pêlos, caso queiram, sem serem chamadas de feminazis ou porcas por isso. Sem serem escrachadas e humilhadas por homens - e outras mulheres - que sentem nojinho desses pêlos.

Elas desejam que aquelas mulheres que não querem engravidar possam viver em paz com sua escolha, sem ter que ouvir críticas e comentários desdenhosos todos os dias por isso. Que mulheres possam ser líderes lúdicas, afetuosas e sensíveis, mas também sérias, firmes e rigorosas, se esse for seu temperamento, e que sejam admiradas por isso, que sejam elogiadas, chamadas de foda, assim como fazemos com os homens sérios, firmes e rigorosos. Elas não querem que as mulheres sejam chamadas de vacas só porque não são sensíveis, "como toda mulher deveria ser".

Se a opção por sair do padrão social desenhado para uma "mulher", que a Juliana Paes tanto defendeu, gera menosprezo, desrespeito e julgamento, ainda que de forma velada - e você sabe que isso acontece, certo? - é porque vivemos presos a amarras sociais. E aí (atenção para o teor chocante da frase a seguir) usar salto, maquiagem e batom vermelho passa a não ser mais uma escolha, e sim uma obrigação.


"Não quero queimar sutiãs. Gosto de sutiãs! Não quero quebrar saltos de sapato em busca de liberdade. Gosto de me enfeitar, e nós, mulheres, não fazemos isso para o macho. Fazemos porque dá prazer cuidar de si e cuidar do outro."

Será mesmo, Ju? Concordo que nos arrumamos para nos sentir bem e que nos faz bem cuidar de nós e dos outros. Mas por que nós mulheres só nos sentimos bem se estivermos arrumadas? Por que só nos sentimos lindas se estivermos raquíticas, com o cabelo perfeito, maquiadas, de vestido e em cima de um salto? Um salto que nos deixa completamente inaptas a executar qualquer tarefa básica (como atravessar a rua, por exemplo), uma maquiagem que nos toma horas e praticamente nos transforma em outra pessoa e uma magreza utópica que nunca vamos conseguir alcançar, afinal, toda segunda-feira a sociedade vai lá e coloca o sarrafo da magreza um pouco mais para o alto.

Alguém já se perguntou por que será que os homens não precisam de maquiagem para se sentirem bem? Por que não precisam de colares, brincos, anéis, bolsas, sapatos, lenços e unhas coloridas? Por que é que eles não precisam, necessariamente, ser bonitos? Por que é tão mais importante para eles serem inteligentes, bem sucedidos, ou até engraçados, e nós, só precisamos, desesperadamente, todos os dias, sermos bonitas? Agradar aos olhos? Encantar? Aformosar o ambiente?

Ser bonito pra eles é um plus. Para nós, ser inteligente é que é. Ser competente, para nós, é excedente. Loira é burra. Mulher não sabe dirigir. Política não é assunto para senhoras. De economia a patroa não entende. Peraí. Será que o fato de ficarem repetindo isso o tempo todo não acaba por nos fazer acreditar? Será que esse reforço de baixa auto estima não nos subjuga? Não nos faz largar lá atrás na corrida por sucesso financeiro? Ou pior, nem tentar largar? Será que sucesso financeiro não significa autonomia, segurança, independência, direitos, saúde, proteção, vida? Será que não coloca uma responsabilidade grande nos ombros dos homens também? Será que não os faz se sentirem péssimos se sustentados por uma mulher?

Não, a questão aqui não é convencer nenhuma dama a parar de se arrumar e virar CEO de uma multinacional. Muito menos transformar os homens em pinheirinhos de natal e colocá-los para lavar louça. Nem falar mal da Ju Paes. Se você pensou isso e começou a entrar em pânico, se acalme. A finalidade é apenas mostrar que, defender, da forma como a moça defendeu, os padrões impostos ao gênero feminino, é perpetuar essa cultura de submissão na qual vivemos e que prejudica a sociedade como um todo. Calma, não dói aceitar que vivemos em uma cultura de subordinação. Não é drama, é a realidade. Talvez você não sofra tanto com isso, talvez nem eu, mas tem muitas mulheres que sofrem, e é por elas que o feminismo luta.

Se hoje é um fato que não ocupamos cargos de liderança em pé de igualdade (dados aqui), talvez seja porque passamos a infância e a vida adulta buscando o elogio que mais recebemos desde que nascemos: linda. É nele que nos agarramos e é ele que procuramos sempre que queremos nos sentir amadas. Os meninos também gostam de ser chamados de lindos, claro que sim. Mas não é numa busca incansável de ser lindos que eles vivem. Quando querem se sentir bem, caçam os elogios que receberam desde pequenos: esperto, inteligente, garoto bom

O feminismo nunca te obrigará a parar de se arrumar, mulher. Ele quer que você faça o que lhe deixa feliz. O que os "excessos" do feminismo não querem - e isso não me parece nada radical - é aceitar que você obrigue todas as mulheres a seguir o seu padrão. E você não as obriga apontando o dedo e mandando. Você as obriga rindo da cara delas com as suas amigas, se elas não estiverem iguais a você. Você as obriga estimulando a competição entre vocês. Exaltando as que seguem seu padrão e, consequentemente, diminuindo as que não seguem, como fez nossa amiga Juliana na matéria.

Homem, você não precisa acabar com a auto estima de uma mulher só porque ela não agradou aos seus olhos. Pode elogiar a beleza, muitas mulheres ainda só se sentem amadas assim. É claro que o ideal de sermos tratadas de forma igual, de fato, está longe. Não será amanhã e nem depois que a beleza deixará de ser o primeiro atributo (e muitas vezes o único) valorizado no gênero feminino. Mas há tantas outras qualidades em uma mulher além dessa. Não custa tentar começar.   

"Sou uma feminista de saia, sutiã, salto alto e batom vermelho."

Confesso que fiquei feliz pela Juliana Paes ter se declarado feminista. Achei fofo da parte dela mostrar que se engaja na luta pelos direitos das mulheres. Pena que a faltou aprofundamento e sobrou equívoco. O posicionamento dela fez com que a essência da luta feminista ficasse, mais uma vez, no escanteio, com cara de bicho selvagem pronto para rasgar suas roupas, roubar seu Louboutin e borrar sua make.

Não, o feminismo não quer te atacar, ele quer te proteger e ampliar suas possibilidades. Ele quer aproximar as pessoas, no sentido mais justo da palavra, e somar. Discorda? Dialogue. Fomente o debate saudável, com aprofundamento, com conhecimento, com amor à verdade, e não com preconceito e superficialidade, como fez nossa amiga Ju. É a verdade que nos torna mais livres, mais humanos e maiores.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Nada de choro, querida.

Quando eu era criança (devia ter uns 3 ou 4 anos) meus pais compravam vários livros educativos e liam para mim e para o meu irmão com frequência. Por um desses livros eu desenvolvi um carinho especial.

A história era sobre a frustração da Minnie com seu chapéu, que era muito feio para ela poder passear. Mickey, então, lhe consolava, dizendo para ela não chorar, pois para tudo havia um jeito na vida. Eles colheriam as flores no jardim e o chapéu viraria uma festa. Poderiam, assim, passear contentes pela floresta.

Meus pais leram essa história para mim tantas vezes que eu a decorei (assim como eles, e meu irmão, e todas as pessoas que me rodeavam, provavelmente). Saía com o livro na mão repetindo tudo, na ordem, puerilmente ostentando a dificuldade natural da idade na pronunciação dos erres.

Quando percebia que as pessoas ficavam espantadas - afinal, eu era uma criança muito nova para saber ler -, a pequena Marina dava ênfase na encenação, acompanhando atentamente as letrinhas, semblante franzido, páginas viradas com precisão temporal. Naquelas horas eu me sentia uma mágica apresentando seu número à plateia. Teatralmente comedida, sorria por dentro.


De toda aquela diversão, no entanto, tirei algo que na época não faria tanto sentido. Uma frase que reverbera em minha mente até hoje, especialmente nos momentos em que enfrento um problema para o qual não consigo ver saída.

Eu continuo buscando respostas em livros. Continuo desenvolvendo carinho especial por alguns deles. E quando os leio e lá encontro a luz (ou quando a encontro de qualquer outra forma), não é mais o Mickey que ouço, ou a Minnie ou meus pais. É a pequena Marina que sinto, confiante e objetiva, que sussurra lá do meu inconsciente:

"Nada de choro, querida, para tudo há um jeito na vida."

Ela sempre tem razão.

Na busca por elucidações descobri que, enquanto a resposta não vem, a gente espera. E finge. Finge que sabe o que está fazendo, finge que entende, fingir que lê. Mas finge com fé. Finge de um jeito honesto. Finge se divertindo.

Eventualmente, como num passe de mágica, a solução estará lá. Porque sim, para tudo há um jeito. Ela tomará o lugar do fingimento, e sorriremos também por dentro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Amor dormente

O amor é uma singela dormideira
Que recordo da infância em meu jardim
Por um toque à vida vem num estopim
Fecha-se idem se na ausência corriqueira.

E da vida então que súbito rasteira
Pôs no amor necessidade de ter fim
Fez minhas lágrimas montarem um motim
A defender-se de sua boca lisonjeira.

Cuspo enfim o meu desejo atrás da grade
Donde sai predestinada e delinquente
- azarando, atraiçoada, a iniquidade

Esta lamúria do meu peito resiliente:
Se ao tocar a dormideira o amor se abre
Faz silêncio, então; que durma esse indecente.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Dona Felicidade

A felicidade a ela pertencia. Dominava o dom da bem-aventurança, uma vez que era senhora de si, de seus sentimentos e de sua liberdade. Soberana das emoções e violenta na existência, esbanjava o inabitual. Nada parecia lhe desconcertar. Sua solidão era permanentemente provisória, os segundos antes de um beijo sempre tomados por rituais de cortejo. Suas mãos não conheciam a escassez. Nunca estava só. A confiança em seus planos lhe asseguravam distração. Mais do que isso: não lhe contentava o comedimento, queria mais. Para ela não havia noite sem manhã, copo ou coração vazios, nem vida, fosse esta desprovida de contentamento. 

Procurei evitar que se aproximasse; a melancolia, minha cravejada matriz, parecia enciumada. No entanto, almas desamarradas sempre me impressionaram - raras e elegantes que são - e não resisti. Deixei que a curiosidade direcionasse meus olhos. Tratei-a com amabilidade agressiva, procurando preservar a indiferença, mãe-protetora. Beijei sem pretensão. Contudo, senti. Deus, como senti. E ela avançou, obedecendo sua naturezaFeito um posseiro, se instalou. Invadiu meu espaço pessoal, meu apartamento, minha cama. Ocupou tudo, até mesmo meu vazio. A soberba me impediu de dizer não. Sua luz me cegava e seduzia, e lhe convidei a entrar, a um lugar de onde não sairia mais.

Sorriso largo, violão, um só sapato, café-que-deixei-esfriar, pão-de-queijo-que-muito-cedo-não-dá, vida, brasa, poesia, mar, flores, dor, amor, desejo, olhos, boca, mãos, fotografias, Rio, aliança improvisada, Ilha, areia misturada, Buenos Aires, anéis, Inhotim, arte, São Luiz, cavalos, Trancoso, paz. Me levou para conhecer o lado da vida em que, com força, se misturam músicas, texturas e sabores.

Tinha pressa. A incerteza do amanhã lhe atirava, e eu queria mais. Já havia esquecido de me importar com a vida; ela me resgatara. Fez com que eu tivesse vontade de subir a montanha novamente, dessa vez ao seu lado. Segurei sua mão, amei novamente. Em alguns momentos fiquei para trás, tinha medo de chegar. Noutros corri, tinha medo de perder. Depois de muitas pedras escorregadias, quedas e água em abundância, enfim, chegamos.

A vista lá de cima era linda. Estonteante mesmo. A temperatura era perfeita e eu sentia o vento bater em meu rosto. Havia árvores de todos os tamanhos, rios muito azuis, flores coloridas, pessoas queridas, momentos que me entusiasmavam e me invocavam. Sorri, satisfeita, e olhei para o lado. Ela estava ali comigo. Também sorria. Seus olhos brilhavam e me encaravam profundamente. E então, adquirindo uma expressão serena e decidida, anunciou:

- Se prepare. Quando você voltar de viagem, vou te pedir em casamento.

Por um segundo, senti minha alma em queda livre. Que delícia de sensação! Pouco durou. De súbito, escorreguei, e o sobressalto me fez tremer. Estávamos no topo de uma montanha, era um precipício que havia ali. Bonito? Naturalmente. Um sonho? Claro que sim. Mas isso não o isentava de sua real condição: um despenhadeiro. Um abismo. A imensidão. O caminho do baque! Vertigem. 

Sem coragem para encarar minha própria fraqueza, me encolhi. "Vamos voltar", disse o covarde que havia em mim. "Quer se espatifar novamente?". A resposta era não. De jeito nenhum. Mas e tudo aquilo? Eu teria de virar as costas a todas as sensações que estariam por vir. Poderia estar negando a felicidade. Poderia estar negando a dor. Tudo parecia bom como estava, era mesmo necessário ir além? Não. Não a qualquer custo. E então, consternada, retrocedi. 

Me retirei para dentro da montanha. Escureceu. A dona da felicidade me seguiu, confusa e, notando meu ar de desdém - entediante escudo -, chorou. Quis me puxar, resisti. Quis lutar, deixei que ganhasse. Quis fugir, deixei que partisse. As pedras escorregadias que encontrávamos passaram de pequenos obstáculos a bloqueios robustos. Salguei a água que garantia nossa sobrevivência. Debilitadas, não conseguíamos mais alcançar nossas mãos. Pedi para sair, não concordou. Teimei, me agrediu. E já fechada demais para conseguir voltar, fugi. 

Lá fora encontrei novamente o desalento. A tristeza, afinal. Distante da euforia, em casa novamente eu estava. O sofrimento, esse eu conhecia bem: desde que não te movas, ele te poupa. Se não ousares amar demais, viver demais, afrontar demais, a tristeza se conserva mansa, quase imperceptível. Resignada no conforto da dor que pouco incomoda (apenas existe), deixei que a felicidade partisse. Foi com ela o extraordinário, a liberdade, a presença. Retornou o vazio, a segurança e o tédio. De onde a senhora da alegria se instalou, nunca mais sairá. Eu, todavia, comigo mesma terei de lidar. Com minha ciumenta melancolia, amante do medo. Que fortificou meus muros, me tirou a luz.