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quinta-feira, 27 de abril de 2017

O átimo

Foi ali
Entre as rochas, os galhos e a chuva
Entre os anjos, os arcanjos e as forças obscuras
Me despiu violentamente com os olhos

Me atingiu
Paralisou, desconcertou, acendeu
Obrigou-me a conter a alma, impetuosa, que saía
Querendo mais, sabendo menos, ficando pouco, sentindo

Forte
Feito a miragem que, ao surgir de repente, te emudece
Feito a água que, ao vir do alto, rasga, fere
Feito o céu que, rarefeito e onipresente, te persegue.




quarta-feira, 26 de abril de 2017

O desafio de não julgar

A gente não escolhe onde nasce. Tem quem saia da maternidade quentinho e confortável. Tem quem venha ao mundo em condições precárias. No corredor de um hospital do SUS, sem pai, sem mãe, sem família. Sem ter uma casa para ir. Sem perspectiva. Para algumas pessoas as primeiras lembranças  da infância são de amor. Para outras, são de violência. E, carregando cada um a sua cruz, muitos conseguem chegar a fase adulta. 

Chegamos aqui e aí vira cada um por si. Atribuindo a nós mesmos o poder de juízes cegos, esquecemos que cada um tem uma história, e condenamos. Medimos as pessoas, sem medo, com a mesma régua. Classificamos mendigos de folgados, sem-terras de vagabundos e os que lutam pelos direitos das minorias de baderneiros inúteis. Sabemos também, é claro, que toda pessoa que tem muito dinheiro é podre, que todo político é corrupto e que quem não concorda conosco, bem, naturalmente é burro. Cotas para negros, demarcações de terras indígenas, reivindicações feministas? Privilégio. Esquecemos a história; deliberadamente ignoramos o contexto. Antes de pensar, apontamos o dedo. Quem é de direita é insensível. Quem é de esquerda é irracional.

Nossa empatia com as experiências do outro, as perspectivas do outro, a defesa que o outro desenvolveu para poder sobreviver, é praticamente zero. Já paramos para pensar o que aconteceu na nossa vida para sermos quem somos hoje? Afinal, como é que o outro vê o mundo? Como é que ele sente as perdas? Como é que ele reage a um ataque?

O Tsedaka Challenge é uma provocação que convida o desafiado a doar - para uma família necessitada ou uma organização sem fins lucrativos - 1 real para cada like recebido em um post e 2 reais para cada comentário. Ele é uma proposta bonita que pode ter um impacto pequeno, caso uma pessoa só faça, mas que me fez pensar. O que é que está ao meu alcance? De quanta coisa eu estou disposta a abrir mão para fazer a mínima diferença que seja num mundo que é completamente desigual? Qual o tamanho da minha gratidão pelo que me foi dado sem critério algum quando nasci?

Nós, que viemos ao mundo quentinhos e confortáveis, somos muitos. E vemos, todos os dias, um imenso desequilíbrio ao nosso redor. Ele não acontece porque as pessoas são preguiçosas, ainda que a preguiça exista. Não acontece porque os cidadãos menos favorecidos não lutam ou não matam um leão por dia, ainda que haja exceções. Não acontece porque as pessoas não são heroínas, como muitos de nós nos consideramos ser. O desequilíbrio existe porque não chegamos nesse mundo de forma igual e, ainda assim, é cada um por si.

Mais do que me encorajar a sair da inércia e efetivamente ajudar alguém, o desafio me fez pensar. E que ele faça todos nós pensarmos. A vida é uma só, ela passa rápido e a felicidade fica, sim, mais fácil quando temos tudo isso no que nos agarramos com medo de passar perrengue, mas não é nessas coisas que reside sua essência. E além das diferenças sociais, existem as diferenças emocionais. E nós temos o tempo pra compartilhar, temos as boas ideias, e temos o amor. 

Isso aqui é só um monte de palavras que se acumularam na minha cabeça quando fui desafiada. E já que resolvi escrever, vai também uma espécie de oração. Que mais pessoas alimentem a empatia em vez do julgamento descontextualizado. Que nasçam empreendedores sociais, e que eles acreditem que é possível, sim, tornar o mundo mais equilibrado, ainda que dentro do capitalismo. Que mais Tsedaka Challenges sejam lançados por aí. Que a gente julgue menos e se ajude mais.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Por que Juliana Paes não deveria ter criticado os supostos 'excessos' do feminismo

Por uma simples razão: ela não entendeu o que é o feminismo.

Quando essa notícia invadiu minha timeline pela primeira vez, pensei: ai, deixa. Alguns momentos depois, porém, uma amiga endossou a postagem. Foi quando resolvi ler a matéria.

"Somos tão competentes quanto os homens, mas não iguais." 

Previsível, pensei. Costumo chamar esse posicionamento de "convicção-zona-de-conforto". Identificamos tal arquétipo de crença nos casos em que o sujeito até tem uma posição, sim, mas superficial e, por isso, normalmente, simpática. Em outras palavras: Juliana foi neutra. Agradou a homens e mulheres que não querem se indispor com o feminismo, nem com o machismo, pois não têm interesse em entender a coisa toda de forma mais profunda. Porque o feminismo é polêmico, né. Ser feminista é polêmico. Ser anti-feminista nos dias de hoje, convenhamos, também o é. Portanto, por que não nos aninharmos no "limbo" ideológico? Claro! Ele é quentinho! E gera menos comentários negativos.

Bom, vamos ao texto da nossa poderosa:

"Existe uma linha do feminismo com a qual eu não concordo muito. Acho errado esse desejo de igualdade com os homens a qualquer custo. Somos tão competentes e valiosas como eles, mas não iguais. A mulher precisa de mais tempo para se recuperar de uma gravidez, e há outras questões que permeiam nosso universo. A sensibilidade, o lúdico, o caminho da ponderação, o afeto nas relações de trabalho... Tudo que faz parte do universo feminino e matriarcal deve ser respeitado"

Concordo. Peço licença e ajuda às mulheres que lutam pela igualdade de gêneros para tanto. Ainda estou construindo meu conhecimento e todos os dias aprendo alguma coisa. Mas sei que somos tão competentes e valiosas como os homens. Não penso que isso seja uma questão. E de fato, não somos iguais a eles. Não temos barba, não temos tantos pêlos no corpo, engravidamos, temos hormônios e uma estrutura biológica diferente. Enfim. Diferenças físicas. Palpáveis. Concordamos nisso. Acontece que não é desse tipo de igualdade que o feminismo trata, e é aí que entra a superficialidade dos comentários da Srta. Paes.

A igualdade da qual trata o feminismo é a igualdade de direitos e a extinção das obrigações sociais. Não vou entrar em questões que se estendam além da aparência hoje pois foi praticamente só nesse quesito que a Juliana se pautou para criticar o movimento. Outro dia posso escrever sobre como a obsessão pela aparência feminina pode se desdobrar em muitos problemas, como a objetificação, o abuso e a violência extrema.

Mas voltando à preservação do universo feminino. As feministas não querem acabar com o universo feminino. O lúdico é lindo! A ponderação é maravilhosa! O afeto cura. Elas não querem que todas as mulheres deixem de engravidar, sejam menos sensíveis ou passem a ter pêlos por todo o corpo. O que elas querem é que as mulheres possam escolher (enfatizando novamente a palavra possam, bem diferente da palavra devam) o que querem ser ou fazer de suas vidas e seus corpos.

O feminismo luta, argumenta e propõe mudanças, não para impor alguma coisa a alguém. Pelo contrário, a ideia é justamente despressurizar. O intuito é que as mulheres possam ter seus pêlos, caso queiram, sem serem chamadas de feminazis ou porcas por isso. Sem serem escrachadas e humilhadas por homens - e outras mulheres - que sentem nojinho desses pêlos.

Elas desejam que aquelas mulheres que não querem engravidar possam viver em paz com sua escolha, sem ter que ouvir críticas e comentários desdenhosos todos os dias por isso. Que mulheres possam ser líderes lúdicas, afetuosas e sensíveis, mas também sérias, firmes e rigorosas, se esse for seu temperamento, e que sejam admiradas por isso, que sejam elogiadas, chamadas de foda, assim como fazemos com os homens sérios, firmes e rigorosos. Elas não querem que as mulheres sejam chamadas de vacas só porque não são sensíveis, "como toda mulher deveria ser".

Se a opção por sair do padrão social desenhado para uma "mulher", que a Juliana Paes tanto defendeu, gera menosprezo, desrespeito e julgamento, ainda que de forma velada - e você sabe que isso acontece, certo? - é porque vivemos presos a amarras sociais. E aí (atenção para o teor chocante da frase a seguir) usar salto, maquiagem e batom vermelho passa a não ser mais uma escolha, e sim uma obrigação.


"Não quero queimar sutiãs. Gosto de sutiãs! Não quero quebrar saltos de sapato em busca de liberdade. Gosto de me enfeitar, e nós, mulheres, não fazemos isso para o macho. Fazemos porque dá prazer cuidar de si e cuidar do outro."

Será mesmo, Ju? Concordo que nos arrumamos para nos sentir bem e que nos faz bem cuidar de nós e dos outros. Mas por que nós mulheres só nos sentimos bem se estivermos arrumadas? Por que só nos sentimos lindas se estivermos raquíticas, com o cabelo perfeito, maquiadas, de vestido e em cima de um salto? Um salto que nos deixa completamente inaptas a executar qualquer tarefa básica (como atravessar a rua, por exemplo), uma maquiagem que nos toma horas e praticamente nos transforma em outra pessoa e uma magreza utópica que nunca vamos conseguir alcançar, afinal, toda segunda-feira a sociedade vai lá e coloca o sarrafo da magreza um pouco mais para o alto.

Alguém já se perguntou por que será que os homens não precisam de maquiagem para se sentirem bem? Por que não precisam de colares, brincos, anéis, bolsas, sapatos, lenços e unhas coloridas? Por que é que eles não precisam, necessariamente, ser bonitos? Por que é tão mais importante para eles serem inteligentes, bem sucedidos, ou até engraçados, e nós, só precisamos, desesperadamente, todos os dias, sermos bonitas? Agradar aos olhos? Encantar? Aformosar o ambiente?

Ser bonito pra eles é um plus. Para nós, ser inteligente é que é. Ser competente, para nós, é excedente. Loira é burra. Mulher não sabe dirigir. Política não é assunto para senhoras. De economia a patroa não entende. Peraí. Será que o fato de ficarem repetindo isso o tempo todo não acaba por nos fazer acreditar? Será que esse reforço de baixa auto estima não nos subjuga? Não nos faz largar lá atrás na corrida por sucesso financeiro? Ou pior, nem tentar largar? Será que sucesso financeiro não significa autonomia, segurança, independência, direitos, saúde, proteção, vida? Será que não coloca uma responsabilidade grande nos ombros dos homens também? Será que não os faz se sentirem péssimos se sustentados por uma mulher?

Não, a questão aqui não é convencer nenhuma dama a parar de se arrumar e virar CEO de uma multinacional. Muito menos transformar os homens em pinheirinhos de natal e colocá-los para lavar louça. Nem falar mal da Ju Paes. Se você pensou isso e começou a entrar em pânico, se acalme. A finalidade é apenas mostrar que, defender, da forma como a moça defendeu, os padrões impostos ao gênero feminino, é perpetuar essa cultura de submissão na qual vivemos e que prejudica a sociedade como um todo. Calma, não dói aceitar que vivemos em uma cultura de subordinação. Não é drama, é a realidade. Talvez você não sofra tanto com isso, talvez nem eu, mas tem muitas mulheres que sofrem, e é por elas que o feminismo luta.

Se hoje é um fato que não ocupamos cargos de liderança em pé de igualdade (dados aqui), talvez seja porque passamos a infância e a vida adulta buscando o elogio que mais recebemos desde que nascemos: linda. É nele que nos agarramos e é ele que procuramos sempre que queremos nos sentir amadas. Os meninos também gostam de ser chamados de lindos, claro que sim. Mas não é numa busca incansável de ser lindos que eles vivem. Quando querem se sentir bem, caçam os elogios que receberam desde pequenos: esperto, inteligente, garoto bom

O feminismo nunca te obrigará a parar de se arrumar, mulher. Ele quer que você faça o que lhe deixa feliz. O que os "excessos" do feminismo não querem - e isso não me parece nada radical - é aceitar que você obrigue todas as mulheres a seguir o seu padrão. E você não as obriga apontando o dedo e mandando. Você as obriga rindo da cara delas com as suas amigas, se elas não estiverem iguais a você. Você as obriga estimulando a competição entre vocês. Exaltando as que seguem seu padrão e, consequentemente, diminuindo as que não seguem, como fez nossa amiga Juliana na matéria.

Homem, você não precisa acabar com a auto estima de uma mulher só porque ela não agradou aos seus olhos. Pode elogiar a beleza, muitas mulheres ainda só se sentem amadas assim. É claro que o ideal de sermos tratadas de forma igual, de fato, está longe. Não será amanhã e nem depois que a beleza deixará de ser o primeiro atributo (e muitas vezes o único) valorizado no gênero feminino. Mas há tantas outras qualidades em uma mulher além dessa. Não custa tentar começar.   

"Sou uma feminista de saia, sutiã, salto alto e batom vermelho."

Confesso que fiquei feliz pela Juliana Paes ter se declarado feminista. Achei fofo da parte dela mostrar que se engaja na luta pelos direitos das mulheres. Pena que a faltou aprofundamento e sobrou equívoco. O posicionamento dela fez com que a essência da luta feminista ficasse, mais uma vez, no escanteio, com cara de bicho selvagem pronto para rasgar suas roupas, roubar seu Louboutin e borrar sua make.

Não, o feminismo não quer te atacar, ele quer te proteger e ampliar suas possibilidades. Ele quer aproximar as pessoas, no sentido mais justo da palavra, e somar. Discorda? Dialogue. Fomente o debate saudável, com aprofundamento, com conhecimento, com amor à verdade, e não com preconceito e superficialidade, como fez nossa amiga Ju. É a verdade que nos torna mais livres, mais humanos e maiores.