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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
Da neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro... e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões...

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doída e fremente!
________

Espanca mais, Florbela.


sábado, 20 de maio de 2017

Sobre sonhos



Steven Spielberg disse que nossos sonhos são sussurros e que devemos prestar muita atenção neles. Eu nunca tinha pensado dessa forma. A sociedade não pensa dessa forma. As vozes estão sempre lá, desde a nossa infância. Contudo, com exceção dessa etapa de nossa vida, em que nada parece impossível, costumamos ignorar tais murmúrios. As crianças os escutam e os repetem em voz alta, sem medo. E então veem que os adultos riem. Acham graça na falta de noção. Chega então a adolescência e o ser humano se revolta com o choque de realidade. Sofre desilusão. Os sonhos não são nem bonitinhos mais. São divagação. Perda de tempo. Não botam a mesa. E os sussurros ficam cada vez mais baixos.  

Não morrem, todavia. Porém, a essa altura, os motivos pelos quais não damos atenção a eles são incontáveis. Seu conteúdo pode já ser claramente bizarro. Arrogante. As ideias talvez pareçam, de fato, inatingíveis. Distantes, muito distantes de reles mortais como nós. Mal deixamos que o clamor tome conta pois, o que as pessoas diriam? Talvez rissem, como quando éramos criança. Dar atenção a esse ruído só traria frustração. Além do mais, são sussurros. Ora, se fosse algo realmente seguro para se fazer, estaria gritando em nossas cabeças. Seria uma voz firme, decidida. E assim ignoramos, mais uma vez, nossos sonhos. 

Eu tinha um sussurro. O de criança era ser atriz a cantora. Mantive por muito tempo. Mas passou, hoje sou feliz alimentando-os apenas como hobby. Felizmente havia outro. Este me dizia que eu precisava fazer algo grande. Trazer, de alguma forma, uma mudança positiva ao mundo. Que eu deveria encontrar uma forma de causar algum impacto, deixar um legado, mudar a vida de alguém, ou de um grupo de pessoas. Em que circunstância? Não sei. Em que sentido? Também não. Mas eu escutei essa voz, há muito tempo, e ela fez cócegas no meu coração. Sua grandeza me assustava. Me deixava perdida. Timidamente, no entanto, me sentia inspirada. 

Cortei da minha lista de potenciais cursos de bacharelado todas as opções que pareciam restringir meus horizontes ou meios de ação. Estudei Relações Internacionais. Parecia vasto. De alguma forma, cheguei ao ambiente corporativo e, depois, à filantropia. Nela encontrei o que fazia meus olhos brilharem. A transformação social definitivamente me cativou. Guardei em meu coração tudo o que senti naquele período e segui. Experimentei o outro lado. O lado de quem não precisa pedir. O lado de quem é demandado e manda. De quem pode tudo, acessa tudo e não precisa de ajuda. Percebi um desequilíbrio. Interpretei como falha. 

Em paralelo a isso acompanhei o surgimento de uma linhagem de empresas que não se assemelha em nada às grandes corporações ou aos impérios familiares. As startups me fizeram acreditar na emergência de potências a despeito de heranças. Fui tomada pela esperança de transformação social dentro de um sistema capitalista que, por sua natureza, cultiva a desigualdade. Nasceram os conceitos de empreendedorismo social e disrupção e, ali, os sussurros, as cócegas e aquele sentimento que guardei se encontraram novamente.

Estudar Negócios Digitais tem colocado meus pés no chão. Não há, contudo, uma aula em que eu não force minha mente a buscar dores que se relacionem tanto com quem tem o poder, quanto com quem precisa dele. Esse é o maior desafio. A experiência que tive na filantropia me mostrou o quanto é árduo ter que implorar para fazer o bem. A caminhada no governo deixou claras as grandes possibilidades que existem, soltas. E o setor privado, sóbrio, sabe que é preciso ter lucro para se manter vivo. A chave, que eu ainda não encontrei, poderia estar na conexão, gatilho e adubagem desses três conceitos, orientados a curar uma dor. 

É possível que o caminho não seja esse. Talvez minha estrada tenha desvios ou seja mais comprida do que imaginei. Nunca me senti tão atraída pela história das mulheres e seus mais profundos desafios. Faz cócegas no coração também. Pode ser este o local da dor que tenho tentado identificar. Não sei. Mas eu sei que não posso parar. Meu sonho não grita na minha cara, mas ele continua sussurrando. 

E escrever tudo isso aqui é uma forma de dizer que, se você pode se beneficiar do meu sonho, talvez eu possa me beneficiar do seu. Assim como Oscar Wilde, eu acredito que se as pessoas vivessem sua vida plenamente, dando forma a cada sentimento, expressão e pensamento, realidade a cada sonho, o mundo usufuiria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helênico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helênico.

Tá aí a transcrição da breve - mas intensa - aula de vida dada pelo Spielberg. Inspire-se:

Quando você tem um sonho, nem sempre ele vem pra você gritando na sua cara: "Isso é quem você é! Isso é o que você tem que ser pelo resto da sua vida!" Às vezes o sonho quase sussurra. E eu sempre disse aos meus filhos: "A coisa mais difícil de se ouvir é a sua intuição, são seus instintos humanos. Eles sempre sussurram, nunca gritam. Muito difícil de ouvir." Então você tem que estar pronto, todos os dias da sua vida, para ouvir os sussurros no seu ouvido. E se você ouvir os sussurros, e isso fizer cócegas no seu coração, e é algo que você acha que quer fazer pelo resto da sua vida, então isso será o que você vai fazer pelo resto da sua vida e nós seremos beneficiados por tudo o que você fizer.  

quarta-feira, 17 de maio de 2017

One Art



The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Elizabeth Bishop

Que soco no estômago, mulher. 
Que sensação de asfixia a cada frase. 
Que ritmo. Que entrega (Write it!). 
Que apunhalada esse final.
Quanta verdade. 
A arte de perder é um baita de um mistério.
_____

Tradução aqui.

sábado, 13 de maio de 2017

Não te amo

No criado mudo estava este livro, que resolvi folhear quando acordei. Lendo as poesias de Neruda fica clara a grandeza do cara, que foi reconhecido por meio do Nobel de Literatura, em 1971. 

Essa que vou postar escolhi por alguns motivos, entre eles o fato de que em algum momento eu sublinhei as duas últimas estrofes e, agora, lendo novamente, as palavras - ainda que não exatamente as mesmas ou no mesmo contexto - me tocaram mais uma vez: 

NÃO TE AMO como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

Cem Sonetos de Amor, Pablo Neruda


sexta-feira, 12 de maio de 2017

A preciosa

Autoestima não tem nada a ver com arrogância. Pelo contrário. A autoestima está tão ligada ao amor como a arrogância à insegurança. Quem está inseguro tende a se proteger. Qual é a melhor defesa? O ataque (agressivo, passivo-agressivo, a outrem e/ou a si mesmo). Já os que se amam não sentem necessidade de se colocar artificialmente acima de ninguém, uma vez que não têm a sensação de estar abaixo. Também não permitem que outros - ou que eles mesmos - lhe maltratem, pois sabem seu valor. 

A autoestima é preciosa. Ela é a mais pura expressão de amor. O amor que nos deixa confortáveis o suficiente para amar os outros e, mais importante ainda, para ser amados. O amor que nos deixa em paz o suficiente para promover a paz. O amor que nos deixa fortes o suficiente para suportar a dor. O que faz com que tenhamos coragem de trazer à tona nossas maiores vergonhas, medos e defeitos, sem despencar por isso. É o que nos mantém seguros sob uma chuva de críticas, sem perder a humildade. O amor que nos torna resilientes não é qualquer amor, é o amor próprio.

Porque autoestima alta não faz com que nos tornemos ignorantes ao fato de que estamos em constante evolução. Só nos dá tranquilidade para saber que não somos obrigados a saber tudo agora, já. Nos dá sossego para dar cada passo no nosso ritmo. Afinal, não somos obrigados a ser quem quiseram que fôssemos. Não somos obrigados a não sentir, não somos obrigados a sentir. Não somos obrigados a corresponder expectativas que não fomos nós que criamos. O amor próprio nos dá a clareza de que somos únicos e, sendo assim, livres.

Autoestima é isso. Liberdade, paz e força. É por isso que se alguém quiser acabar com você, o caminho mais fácil será acabar com a sua autoestima. 

Não deixe que ninguém acabe com você. Cuide bem dela.


p.s.: meu maior pesadelo virou realidade e esse blog está começando a lembrar um livro do Paulo Coelho? Por favor, me chacoalhem.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Dez anos de caos e paz

Esse ano, em setembro, vai fazer dez anos que escrevo aqui. Nessa espécie de diário aberto ao público. 

Comecei a escrever nele por um motivo muito simples: falta de ar. Eu estava sufocada. De amor. Era meu primeiro contato com ele. E, asfixiada também de dor - no auge dos meus 20 anos - acho que escrever e publicar me dava, além da sensação de alívio de colocar os sentimentos para fora, a esperança de algum consolo. Eventualmente uma alma virtual por ali vagante poderia se identificar com meu desespero e compartilhar um pouco de benevolência e conforto.

Se a tática era mesmo essa, deu certo. Relendo os poucos comentários da época senti, de fato, bastante carinho. Saboreei todos sorrindo e interagi com eles na minha mente. Então me dei conta de que quase nenhum recebeu resposta. Por que será? Forçando um pouco a mente, cheguei à conclusão de que, provavelmente, eu fazia isso por três motivos principais:

1. Vergonha: eu não queria que as pessoas percebessem minha carência. Na minha cabeça, portanto, ignorar poderia fazê-las pensar que eu não estava nem aí para os comentários. Que queria apenas escrever, sem expectativas de retorno. 

2. Insegurança: minha autoestima era tão, mas tão baixa, que eu tinha medo que as mensagens cessassem caso eu respondesse. Sim, eu tinha certeza de que qualquer coisa que eu fizesse, daria merda.

3. Obsessão: nada me preenchia, fora minha obsessão. Eu poderia estar rodeada de possíveis amores, amigos que me quisessem bem ou familiares que cuidassem de mim. Ainda assim, eu sentiria falta daquela determinada criatura, e só dela. A solidão era tão grande que toda e qualquer explosão de amor voltada a mim seria vista, na melhor das hipóteses, como... fofa. Por mais triste que isso seja.


Enfim, reli vários posts e encontrei uma menina assim, quebradinha. Tentativas de escritos que mais pareciam fluxos de consciência, poesias tristes, músicas de lamento e, entre um pico de depressão e outro, publicações super felizes e animadas. Hoje é perceptível a necessidade que eu estava de uma forcinha profissional. Apoio esse que claramente deveria ter procurado, mas não o fiz. 

Felizmente houve evolução nos posts. Não foi tão rápido mas, dez anos depois, eles estão bem mais objetivos, organizados, claros e firmes. Sinto orgulho ao ver que hoje consigo compreender melhor o que se passa dentro de mim e, assim, poder compreender e, eventualmente, até ajudar, quem está a minha volta, estabelecendo relações mais maduras e positivas.

Ainda há dor, é claro. Muitas decepções, inseguranças e até pequenas obsessões. Mais amenas, no entanto. A ansiedade diminuiu bruscamente. A inconstância também. Estou mais segura de quem sou, com menos medo de ser essa pessoa, de enfrentar as consequências inerentes a esse fato. E também de desfrutar, sem culpa, as delícias singulares a ele. Sentir a paz que construí (não sozinha) ao longo desses dez anos me dá estrutura emocional para tentar transmitir ela adiante. E eu estou muito animada para isso.

Foi gostosa essa viagem. 

Te vejo aos 40, Marina. Vê se não decepciona nessa próxima década.