Meu objetivo ao fazer o Caminho de Santiago era aprender a amar. Uma meta que fez muitas testas franzirem.
Comecei lá e sigo aprendendo, descobrindo, cada vez mais, o tanto que esse negócio é difícil. Como demanda coragem. Como se enrosca em dias exaustivos, sensações ruins, traumas infantis. Medo da rejeição, da traição, da injustiça, do abandono. Feridas à flor da pele que vão desafiando a sustentação dos nossos desejos mais profundos.
Por isso, tão difícil quanto amar, é se permitir ser amada. Porque abrir esse espaço é pular no precipício confiando, sem ter certeza, que alguém dobrou seu paraquedas direitinho. É preciso se mostrar. E suportar ser vista. É sustentar, imóvel, o desconforto de perceber alguém encarando sua feiúra de perto. Correndo o risco de ela assustar tanto, a ponto de você ser abandonada. Nua. Sozinha. No frio. Se permitir ser amada com o risco de não o ser, tendo milhares de evidências contrárias em mãos. Esse é o tamanho da coragem que se pede.
Mas para ser inteiro não basta uma via, pede-se um encontro. É preciso que também sejamos quem suporta os horrores do outro. Quem permite ruir seu ideais para enxergar o outro. E não vai embora ao vê-lo desnudo - e certamente muito imperfeito - diante dos seus olhos.
E, por fim, parece que amar exige também uma fidelidade a si mesma. Decidir encontrar o amor, e afinar o ouvido para ouvi-lo. Descobrir onde há solo fértil e onde as condições climáticas não são favoráveis. Saber quando se levantar e se vestir. Com cuidado, porque a lucidez pode ter a mesma voz do medo.
O tal do amor. Um caminho florido, longo e assustador, em que há música, mas muitas vezes se dança solo.
E, eventualmente, com sorte, talvez se esbarre num par que, hora ou outra, sem dúvidas irá nos pisar o pé. Mas que escuta a mesma melodia que a gente, e canta ela baixinho em nosso ouvido, confiante de que, mesmo errando para sempre, uma hora acertaremos o passo.
