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sábado, 20 de maio de 2017

Sobre sonhos



Steven Spielberg disse que nossos sonhos são sussurros e que devemos prestar muita atenção neles. Eu nunca tinha pensado dessa forma. A sociedade não pensa dessa forma. As vozes estão sempre lá, desde a nossa infância. Contudo, com exceção dessa etapa de nossa vida, em que nada parece impossível, costumamos ignorar tais murmúrios. As crianças os escutam e os repetem em voz alta, sem medo. E então veem que os adultos riem. Acham graça na falta de noção. Chega então a adolescência e o ser humano se revolta com o choque de realidade. Sofre desilusão. Os sonhos não são nem bonitinhos mais. São divagação. Perda de tempo. Não botam a mesa. E os sussurros ficam cada vez mais baixos.  

Não morrem, todavia. Porém, a essa altura, os motivos pelos quais não damos atenção a eles são incontáveis. Seu conteúdo pode já ser claramente bizarro. Arrogante. As ideias talvez pareçam, de fato, inatingíveis. Distantes, muito distantes de reles mortais como nós. Mal deixamos que o clamor tome conta pois, o que as pessoas diriam? Talvez rissem, como quando éramos criança. Dar atenção a esse ruído só traria frustração. Além do mais, são sussurros. Ora, se fosse algo realmente seguro para se fazer, estaria gritando em nossas cabeças. Seria uma voz firme, decidida. E assim ignoramos, mais uma vez, nossos sonhos. 

Eu tinha um sussurro. O de criança era ser atriz a cantora. Mantive por muito tempo. Mas passou, hoje sou feliz alimentando-os apenas como hobby. Felizmente havia outro. Este me dizia que eu precisava fazer algo grande. Trazer, de alguma forma, uma mudança positiva ao mundo. Que eu deveria encontrar uma forma de causar algum impacto, deixar um legado, mudar a vida de alguém, ou de um grupo de pessoas. Em que circunstância? Não sei. Em que sentido? Também não. Mas eu escutei essa voz, há muito tempo, e ela fez cócegas no meu coração. Sua grandeza me assustava. Me deixava perdida. Timidamente, no entanto, me sentia inspirada. 

Cortei da minha lista de potenciais cursos de bacharelado todas as opções que pareciam restringir meus horizontes ou meios de ação. Estudei Relações Internacionais. Parecia vasto. De alguma forma, cheguei ao ambiente corporativo e, depois, à filantropia. Nela encontrei o que fazia meus olhos brilharem. A transformação social definitivamente me cativou. Guardei em meu coração tudo o que senti naquele período e segui. Experimentei o outro lado. O lado de quem não precisa pedir. O lado de quem é demandado e manda. De quem pode tudo, acessa tudo e não precisa de ajuda. Percebi um desequilíbrio. Interpretei como falha. 

Em paralelo a isso acompanhei o surgimento de uma linhagem de empresas que não se assemelha em nada às grandes corporações ou aos impérios familiares. As startups me fizeram acreditar na emergência de potências a despeito de heranças. Fui tomada pela esperança de transformação social dentro de um sistema capitalista que, por sua natureza, cultiva a desigualdade. Nasceram os conceitos de empreendedorismo social e disrupção e, ali, os sussurros, as cócegas e aquele sentimento que guardei se encontraram novamente.

Estudar Negócios Digitais tem colocado meus pés no chão. Não há, contudo, uma aula em que eu não force minha mente a buscar dores que se relacionem tanto com quem tem o poder, quanto com quem precisa dele. Esse é o maior desafio. A experiência que tive na filantropia me mostrou o quanto é árduo ter que implorar para fazer o bem. A caminhada no governo deixou claras as grandes possibilidades que existem, soltas. E o setor privado, sóbrio, sabe que é preciso ter lucro para se manter vivo. A chave, que eu ainda não encontrei, poderia estar na conexão, gatilho e adubagem desses três conceitos, orientados a curar uma dor. 

É possível que o caminho não seja esse. Talvez minha estrada tenha desvios ou seja mais comprida do que imaginei. Nunca me senti tão atraída pela história das mulheres e seus mais profundos desafios. Faz cócegas no coração também. Pode ser este o local da dor que tenho tentado identificar. Não sei. Mas eu sei que não posso parar. Meu sonho não grita na minha cara, mas ele continua sussurrando. 

E escrever tudo isso aqui é uma forma de dizer que, se você pode se beneficiar do meu sonho, talvez eu possa me beneficiar do seu. Assim como Oscar Wilde, eu acredito que se as pessoas vivessem sua vida plenamente, dando forma a cada sentimento, expressão e pensamento, realidade a cada sonho, o mundo usufuiria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helênico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helênico.

Tá aí a transcrição da breve - mas intensa - aula de vida dada pelo Spielberg. Inspire-se:

Quando você tem um sonho, nem sempre ele vem pra você gritando na sua cara: "Isso é quem você é! Isso é o que você tem que ser pelo resto da sua vida!" Às vezes o sonho quase sussurra. E eu sempre disse aos meus filhos: "A coisa mais difícil de se ouvir é a sua intuição, são seus instintos humanos. Eles sempre sussurram, nunca gritam. Muito difícil de ouvir." Então você tem que estar pronto, todos os dias da sua vida, para ouvir os sussurros no seu ouvido. E se você ouvir os sussurros, e isso fizer cócegas no seu coração, e é algo que você acha que quer fazer pelo resto da sua vida, então isso será o que você vai fazer pelo resto da sua vida e nós seremos beneficiados por tudo o que você fizer.  

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