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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Carta a minha família

To aqui ouvindo os barulhos de vocês, as conversas, pequenas provas de que estão na sala ou no quarto; de que estão em casa. E pensando: há quanto tempo eu não sei mais o que é ter isso todos os dias? Há quanto tempo não sinto perto de mim tanta gente que me ama sinceramente? Que só me quer bem? Que sai na rua e volta com uma bota nova porque viu que a minha está em péssimo estado? Que passa horas consertando portas de armários caindo aos pedaços, trocando lâmpadas e fazendo um cházinho sem perguntar antes se eu quero? 

Ter vocês aqui é lembrar que eu tenho uma base. Uma origem. Um porto seguro. Um porto firme pra onde eu posso voltar, pro qual eu posso recorrer, se tropeçar. Ter vocês aqui é lembrar que eu tenho uma história. E que linda história. Que história de amor. Eu fui uma criança tão esperada. Era o centro das atenções. Quando penso no carinho que recebi, no ninho quentinho e aconchegante em que cresci, só penso na palavra "amor", amor, amor! 

E aí lembro do quanto eu me afastei de vocês. Me fechei e me protegi por pensar que ser eu, não seria suficiente para vocês. Que quando vocês soubessem que eu não era aquela princesinha que vocês tanto cuidaram, vocês deixariam de me amar. Eu tinha certeza de que jamais seria aceitável para vocês. 

Porque quase ninguém como eu é. Pessoas como eu são chamadas de promíscuas. Vocês não me criaram para ser promíscua. Pessoas como eu são espancadas na rua, como vira-latas órfãos raivosos. Vocês não conseguiriam me amar assim. Pessoas como eu são alvo de protestos religiosos, não vão para o céu, merecem apenas misericórdia. Vocês não me ensinaram tanto a rezar, para eu acabar no inferno. 

Então eu me fechei e sofri sozinha. Lutei contra mim mesma. Me odiei. Me desprezei. Me chutei na rua, porque eu era um cachorro vagabundo e promíscuo que não merecia amor. Nem o meu próprio amor. 

Mas eu não podia me matar. Lá no fundo uma luzinha teimava que eu tinha algum valor. E depois de alguns anos à margem de mim, eu tentei me entender. Tentei entender aqueles que são como eu. Tentei e tentei, até aquela raiva de mim mesma passar - a muito custo, e eu conseguir cultivar um pequeno afeto por mim mesma novamente. E ele foi crescendo. A ponto de me dar coragem.


Quando eu me amei o suficiente eu pensei que talvez vocês também pudessem me amar. E essa coragem me fez querer tirar aquela máscara claustrofóbica e deprimente que eu submissamente carreguei por longos anos. Joguei ela num canto e vocês escreveram mais um capítulo da nossa história. Um novo capítulo que eu jamais esperava. Vocês reviveram o amor. 

Apesar de todo o sofrimento que eu vi vocês passarem, e que sei que ainda passam (porque eu também passei por ele e ainda passo), vocês me respeitaram. Me olharam, ao menos. Me perguntaram. Me ajudaram. Mais do que talvez eu mesma tenha me ajudado. Vocês superaram e reestruturaram (e eu usaria esses verbos no presente contínuo também) conceitos (ou seriam pré-conceitos?) impostos pela sociedade. Comunidade essa na qual estão inclusos seus próprios pais e mães, dizendo horrores desde que nasceram. Vocês choraram por imaginar que eu sofreria; afinal, quem não sofreria se toda essa gente pensasse de si o que vocês pensavam? O que eu mesma pensava das pessoas que são como eu? 

E hoje vocês estão aqui. No banheiro, na sacada. Escovando os dentes, fazendo meu café. Sabem quem eu sou, e estão aqui. E estão me olhando com amor. E como eu AMO vocês por conseguirem me amar. E como eu sou feliz por finalmente entender que eu mereço o amor de vocês. Porque o que eu pensava de mim mesma estava equivocado. Porque o que as pessoas falam, elas falam porque não sabem o que é isso direito. Porque elas se julgam no direito de "nos amar" apesar de. Apesar de sermos vis pecadores. Apesar de sermos desviados. Apesar de termos escolhido o caminho do mal.

Sendo que na verdade são elas que merecem nosso perdão. Elas não sabem o que fazem. Não sabem o que pensam. Não sabem o que dizem. São manipuladas todos os dias para manter suas mentes trancadas. São vítimas de uma ditadura histórica que chega a ser patético continuar seguindo quando se vê de fora. São assim porque não têm informação - ou selecionam as informações que justificam o que as fizeram pensar da mesma forma quadrada desde pequenas. Têm medo do que foge aos seus alicerces. Não querem se abrir, não querem amar DE VERDADE. Querem julgar e vitimar. Querem se salvar, jogando os outros na fogueira. 

Mas o que importa a opinião deles, se nós nos amamos? A cada um de vocês cinco: muito obrigada por serem a minha família.

Curitiba, 31 de julho de 2015.

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