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terça-feira, 28 de julho de 2026

Espiral

"O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.

Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.

O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."

Coríntios, 13:4-7

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Um poema pra mim

Meu objetivo ao fazer o Caminho de Santiago era aprender a amar. Uma meta que fez muitas testas franzirem.

Comecei lá e sigo aprendendo, descobrindo, cada vez mais, o tanto que esse negócio é difícil. Como demanda coragem. Como se enrosca em dias exaustivos, sensações ruins, traumas infantis. Medo da rejeição, da traição, da injustiça, do abandono. Feridas à flor da pele que vão desafiando a sustentação dos nossos desejos mais profundos.

Por isso, tão difícil quanto amar, é se permitir ser amada. Porque abrir esse espaço é pular no precipício confiando, sem ter certeza, que alguém dobrou seu paraquedas direitinho. É preciso se mostrar. E suportar ser vista. É sustentar, imóvel, o desconforto de perceber alguém encarando sua feiúra de perto. Correndo o risco de ela assustar tanto, a ponto de você ser abandonada. Nua. Sozinha. No frio. Se permitir ser amada com o risco de não o ser, tendo milhares de evidências contrárias em mãos. Esse é o tamanho da coragem que se pede.

Mas para ser inteiro não basta uma via, pede-se um encontro. É preciso que também sejamos quem suporta os horrores do outro. Quem permite ruir seu ideais para enxergar o outro. E não vai embora ao vê-lo desnudo - e certamente muito imperfeito - diante dos seus olhos.

E, por fim, parece que amar exige também uma fidelidade a si mesma. Decidir encontrar o amor, e afinar o ouvido para ouvi-lo. Descobrir onde há solo fértil e onde as condições climáticas não são favoráveis. Saber quando se levantar e se vestir. Com cuidado, porque a lucidez pode ter a mesma voz do medo.

O tal do amor. Um caminho florido, longo e assustador, em que há música, mas muitas vezes se dança solo.

E, eventualmente, com sorte, talvez se esbarre num par que, hora ou outra, sem dúvidas irá nos pisar o pé. Mas que escuta a mesma melodia que a gente, e canta ela baixinho em nosso ouvido, confiante de que, mesmo errando para sempre, uma hora acertaremos o passo.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Represa

O que eu quero te dizer
os poetas todos já escreveram


Que você tem uma beleza que me detém
e depois passa, some dos meus olhos
e por isso dói mais.

O que eu quero te dizer

é grande demais pra essa garganta
Termina preso no meu peito
faz de mim uma represa.

Se eu pudesse descrever
o que tem no fundo dos seus olhos
Shakespeare já sabia
que no futuro se diria:
mente essa mulher.

Em astromélias, em cachoeiras, no sol
Tanto tentaram
mas sobre você, assim como eu
ainda não disseram.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Solidão

As semanas são solitárias. 

Notícias chegam como um boletim para a família de um paciente enfermo. Protocolares.

E eu, como esta família, permaneço inerte. No aguardo.

Inquieta, preocupada, prevendo o pior. Antecipando o que os médicos sem dúvidas estão tentando esconder para me preservar.

Ainda há batimentos, afinal.

Quando os olhos se encontram, há águas. Há fogo. Há luz. 

Piscando, opaca, mas lá. Como a lua que nossos olhos encontram surpresos de repente num céu do qual ela parecia ter desistido de aparecer naquela noite.

E quando as mãos se entrelaçam, ainda há calor. E os abraços ainda não são estranhos.

Há batimentos.

Há dois corações. E batem.

Perdidos na lonjura das fibras que lhe teceram, no entanto, já não se escutam mais.

Teias de medo que lhes envolvem as válvulas, lhe amordaçam. bem, len, ta, men, te. 

Silêncio.

Vem pra longe, aqui é seguro. 

A solidão é segura. É refúgio. 

Retiro de uns. Pesadelo de outros.

Protetora e delatora.

O que estou fazendo nessa sala de espera? Intuição ou neurose?

Na solidão já estou. Que dor assumir isso. Migalhas estéreis. Boletins protocolares, é o que tenho. 

Mas e o futuro? E o auto cuidado? E a esperança? E os limites? E a paciência? E a vida passando? E o amor?

Que medo congelou meu coração? Que medo alheio vai deixá-lo em estilhaços? 

Inanição de amor. Rigor mortis. Frio.

Não há mais o que temer. 

A não ser me ver crua no espelho. Dar a mim mesma meu próprio colo. Me agigantar. Matar a pena. 

Não há mais o que temer. 

A não ser encarar a ferida que nunca fechou. O objeto do reflexo.

Não há mais o que temer. 

A não ser desafiar meu ego. Ver nele a dor da criança que lhe pariu.

Não há mais o que temer. 

A não ser a vida que ainda pulsa, insistente.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Goodbye My Lover

 Goodbye My Lover, from James Blunt. This is the song I used to listen to 10 years ago, when my heart tried hard to let go of what felt like a dam. It was an overpowering feeling. It could light up an entire city. A gargantuan monument - created by men. Fears and shadows. A breathtaking landscape - made of concrete. A ruptured dam that although magnificent destroyed everything ahead of it. 


This is the song that I picture you listening to while you feel the sorrow of an unfinished love story that harmed you in some ways while making you feel alive in others. I felt the pain of having to let go from a splendorous harmful love. And it makes me think of how hard you've tried to be with me while managing all these feelings within you. How hard you've tried to be with me, while staring at that dam - from a distance. To surrender to me, while holding it tight - so it wouldn't break. To love me, while knowing you would have to walk back and face it. 


So now, when I look back, I think our story tasted like fresh coffee. Strong, warm, comfy - that we hold nearby and the smell makes us close our eyes and smile peacefully. A fresh coffee that is all that, and yet ephemeral. When one doesn't drink it immediately, it gets cold. Warming it up is useless after all - coffee loses what makes it good quickly. And maybe a year ago you would not mind drinking cold coffee. Now I know you do. Perhaps cold coffee becomes less attractive when someone is preparing a new one. Especially when this someone is our own selves. Fresh coffee is good because it is fresh.


I miss that taste. I miss the careful work of preparing it. Filling up the kettle, waiting patiently for the water to boil. Grabbing the pot, measuring the right amount of powder. I miss feeling it in the morning, planning it for the weekend. Its warmth in my hands. I miss bringing it to you on a busy day. I miss everything that accompanied it. Smiles with closed eyes under the sun. All nighter dissertation. Screaming the lungs out on Shakira. Tough conversations. An alcoholic spice while chasing the Northern Lights. I miss that short-lived taste. I miss that firm, hearty, cozy taste.  


But I had never seen us like that. Like a liquid we put in a cup taken from the cabinet. Something we enjoy for a while, and leave somewhere with some undrinkable residue at the bottom. So it is still weird for me to witness the fragility of our relationship. To observe its sublimation process: from solid to steam. From life plans to confusion, rage, and silence. To complete emptiness. 


Maybe, to protect my heart, I've turned my face to the signs that it could never be more than that. Perhaps I've turned my face to you because I was afraid to see the truth. Maybe I didn't offer what you needed. I wonder how much of you I haven't seen while I was right beside you. Maybe I was selfish. Maybe I am not someone you want to have as a partner, maybe not even in your life. Maybe. I don't know. 


It's been almost two months since I told you that I wanted to try again. Almost 60 days you told me you would let me know when you were ready to talk. When you told me: "I will really let you know. It won't take long". Maybe this silence is the answer. Maybe not. 


Two months ago, I did want to uncover this bunch of "maybes". I did want to listen, learn, and try again. Now I'm thinking that, once more, I am being blind and selfish. Again, I am refusing to see you. Once again, you make it clear that you are not available to me emotionally. Through acts, through words, through the absence of them. That is why I write these words. To try and expel the words that I am realising will never be said. To remember the songs that will never be sent. To feel the feelings I will never share. 


I swore that I would listen to that song from James Blunt no more than once. And trying to warm this coffee up is bringing that same bitter taste to my mouth. My mind is feeling abandoned and betrayed. But my heart is done hoping for more. My mind refuses to close this story like this. But my heart just wants to surrender to gratitude and acceptance for the cup we have shared.


Goodbye my lover. I hope we don't ever have to kneel at someone's feet again, in our pursuit for love. And although we know we have not been the one to each other, I love you, I swear that's true.

terça-feira, 21 de março de 2023

Cidade

A cidade testemunha solitária
meu sorriso

Não há carros, não há movimento

A não ser o olhar verde dos sinais
Permitindo que a minha alegria passe
Perdure

Não há dores, não há tormento

A não ser a luz verde de seu olhar
Impune

Presenteando-me adolescência
Febre
Entranhas, suor

Um beijo
Ao qual jamais serei imune

Pelas ruas da cidade calada
Invento

Um minuto a mais
Quem dera

Levando seu cheiro comigo

Pudera.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Gratidão pelo nosso grande amor

Ontem no banho de imersão que ganhei dela senti muita gratidão. Apesar de o oráculo ter me orientado a buscar essa gratidão, antes mesmo de chegar onde estamos, estava muito difícil pra mim olhar através dessas lentes. Eu senti tristeza, frustração, raiva. Mas não conseguia acessar a gratidão.

Acho que quando um relacionamento intenso - por vezes turbulento - no qual a gente, ainda assim, foi muito feliz, está fragilizado, ou termina, às vezes parece que toda aquela felicidade foi tão pouca. Tão pouca, perto do que ainda poderia ter sido. Tão pouca, perto do amor que ainda é tão grande. Tão pouca, perto de uma vida inteira pela frente. Sem ela.

A gente, quando ainda sente muito amor, quer mais. E mais. E mais. Porque, ao contrário do partilhar da vida, esse amor segue vivo. Ele não morreu. A troca morreu. Ele não. Segue vivo, muito vivo. Segue alimentando ilusões. Ilusões sobre um futuro incerto. Será que ela ainda pensa em mim? Será que ainda existe uma chance pra nós? Será que essa angústia vai passar?

Nosso coração segue sentindo os desejos. Os desejos, sobre os quais ela falava tanto. O desejo e a ausência da sua realização. O desejo e a frustração. O ter muito, e sempre querer mais. É na falta que a vida acontece, ela dizia. A vida é um monte de faltas. E como é difícil sentir gratidão quando tem um rombo no nosso peito. Quando parece que falta uma parte do nosso coração.

Mas ontem, quando aquela água morna aconchegou meu corpo, quando o sal grosso escorreu por entre os meus dedos, derretendo lentamente ao fundo da banheira, quando o aroma de verbena viajou delicadamente pelo ar, e a espuma que, se moldando às minhas mãos distraídas, testemunhou a dor que eu cuidadosamente do meu peito removia, ali, naquele lugar tão calmo, tão bonito, tão meticulosamente arrumado para o meu conforto, eu senti gratidão.

Naquele momento eu existia para receber amor. Eu recebia um amor do passado. E mesmo sabendo que talvez ele não volte mais, mesmo sabendo que agora preciso deixar essa vontade louca de você descer pelo ralo junto com a espuma da banheira, eu senti que valeu a pena. Ter vivido tudo o que vivemos, para agora estar sentindo esse amor retroativo.

Ter me entregado a essa paixão. Insistir nela, lá no começo, quando você desviava o olhar, querendo se distrair de mim. Valeu a pena sair de casa, explorar o mundo, construir um lar com você. Valeu a pena o carnaval. Valeu a pena o surfe. Valeu a pena os bilhetes. Os quadros novos. As conversas profundas. As gargalhadas infinitas. Os sanduíches no meio das nuvens e das estradas vazias. Os girassóis. Valeu a pena sentir a dor. Valeu a pena sentir a esperança. Valeu a pena viver um grande amor com você, meu amor. Eu agradeço.


sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Não te amo mais

Não te amo mais.

Sua jaqueta de relance na foto

Já não faz meu coração bater.


Seu rosto entre os das outras pessoas

Já não é o que atrai o meu olhar.


Não te penso mais como antes

Não te desejo na minha cama.


A não ser quando me deito.

A não ser quando fecho os olhos.


Você sorri, como se, depois de tudo, ainda me tivesse

Mas eu preciso que saiba: eu não te amo mais.


Não sinto vontade de ler tuas palavras

Ou te escrever cantadas, te encantar.


Não quero mais sentir teu cheiro

Nem o calor da tua respiração.


Não quero mais rir até doer

Nem dar oi-abraço demorado.


Não quero dormir ao teu lado

Nem subir montanhas contigo.


Não quero pensar nos nossos planos

Nem sei mais o que combinamos.


Eu não te sinto mais.

Não te desejo mais.

Não te quero mais.


A não ser quando me esqueço 

Se me rendo, me distraio

Se amoleço


A não ser quando respiro…

Preciso que saiba:

Que não te amo. Eu não te amo mais.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Armordaçado

Abri de novo os olhos e lá estavam os seus. Me observavam de cima. Tomava meus cabelos pela mão. Firme. Meus movimentos guiados na direção do seu prazer. 

Eu explorava seus cantos sem pressa, oferecendo a sustentação dos meus ossos, a força dos meus músculos e o calor da minha pele. Entregaria minha alma, naquele momento, se assim lhe conviesse. 

Confessei uma submissão contente no meu semblante. Estava diante de uma mulher brutal. “Eu te amo tanto”, sussurrei, sem me dar conta, em pensamento. Olhos ainda fixados. 

Sem desviar, percorri seu corpo, ligando todos os pontos de luz e sombra passíveis de captura por uma lente apurada. O tempo se distraía. Se alguém dissesse que uma nova estação havia chegado, eu acreditaria. 

Quebrei a contemplação. O amanhecer de todas as primaveras encontraram, no meu corpo escasso, espaço para florescer. Violentamente. Encostei meu rosto, pernas e tudo o que pude encontrar de mim nela. 

Inalei sua respiração. Ar, chuva, brasa e chão corriam agora pelas minhas veias. Eu já não me rendia mais. Eu engolia. 

Deixei entrar todos os medos, dores, desejos, angústias, alegrias, espantos e fascínios que haviam me trazido até ali. E quanto mais eu me abria, mais impetuosa a lava. Mais ensandecido o corpo. Mais alta aquela voz calada protestava. 

Não deixei que me tocasse. Naquela noite, havia sido uma janela o canal para todos os córregos que haviam em mim. Naquela noite, magma, solo, sopro e mar escolhiam nascer, morrer e renascer pela fresta de uma mirada. 

Dos seus olhos, colhi a verdade que me inundava. Dos meus olhos, eu deixaria que voasse - encharcado, alucinado, libertado - o gozo desse amor por tanto tempo amordaçado.


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Sem mais

Tristeza deixaste
Quando a porta fechaste
Em busca de paz.

Arranca, minha criança

Coragem, minha criança!
Faltam quantos segundos
Pra ver sua vida passar?
As janelas fechar?
Aquele trem não pegar?
A paisagem não ver?
Ao seu lado
Quantos toques não tocados
Beijos não beijados?
Arranca, minha criança,
Aí de dentro a força
De viver sem meias lembranças.



El amor

El amor me ha hecho volar
A creer tanto hasta partir
A atravesar un continente
A conocer toda la gente
A derretirme de compasión

El amor me enseñó a hablar
Me llenó de sabores
Amargos y picantes
De besos
Tan certeros
Como cálidos
Silenciosos y distantes

El amor me ha dado un latir de vida
Y me lo ha quitado
Me ha permitido sonreir
Y a sentir los árboles moviendose
El dolor de no tener salida
De no poder moverme 
Como ellos

Me llevó lejos de quien amaba
Cerca de quien me hizo sangrar
Me puso en una pelicula
A ver el sol ponerse
en silêncio
El más ensordecedor que he oido
Con manos y corazones abrazados
Paradójicamente
Despertando mis miedos más sombrios

El amor me dejó el pecho abierto 
Bajo la luna que me hacia el conteo de las horas
Una cascada a la cual solo yo podría contener
Y en medio de dolor y lagrimas
El amor me regaló también coraje
Para veer cosas lindas
Probar cosas ricas
Y por fin volver a mi misma

En un avión
Para morir con esta historia
Arrancar del pecho los gritos
Escuchar finalmente a mis instintos
Dejarle sole
Cómo debió haber sido
Desde el principio
Y de ahí lentamente renacer. 



Fusão

Te olhei. Deitada, você sorria pra mim. Me observava, curiosa. Um pouco nervosa. Com vontade. Te beijei devagar. Molhei teus lábios, senti sua saliva. Na sua boca, o cais do mar onde eu iria mergulhar. Deslizei meus dedos pelo teu corpo, ergui sua blusa. Senti a delicadeza quente do seu ventre. A maciez que convidava minhas mãos. Segui. Te envolvi nos braços, beijando a boca. Tirei a blusa, seu sutiã. Você riu da minha habilidade. O universo ali se fez, entre o seu sorriso e o meu. Contemplei seu corpo, com fome. Beijei seus seios, lentamente. Me perdi neles. Não queria mais sair. Mais de você havia. Minha mão procurou suas pernas. Tirei sua calça, meus olhos presos nos seus, nossos sorrisos bobos. De quem relembra um passado inexistente. De quem quer que o tempo pare; que essa noite nunca acabe. Voltei pra perto, senti saudade. Inspirei o almíscar com tangerina do seu pescoço, estudei seu corpo com meu tato. Tirei minha roupa. Nua, vi sua mão acariciar meus seios. Senti você me descobrindo. Tocando uma mulher, pela primeira vez. Eu queria tanto você. Sentir você. Inspirei seu cheiro mais uma vez. Te beijei mais uma vez. Senti o compasso da sua respiração aumentar. Seu sexo pulsar sob a renda branca e o peso do meu corpo. Queria acariciar e arrancar com os dentes. Deslizei meus dedos entre as suas pernas. Você deixou. Me aproximei da sua boca. Queria ouvir você. Falar com você. Compartilhar com você o momento em que me molhava. Senti seu corpo se contorcer. Pedi passagem, devagar. Senti seus braços me segurarem forte. Meu rosto puxado contra o seu. Sussurrei de prazer, baixinho. Você me ouviu. Gemeu comigo. Pediu mais, sem dizer nada. Fui mais fundo, explorando-te por dentro. Te olhei nos olhos. Era você ali. Sorrimos. Beijei sua boca, desci com a minha. Procurei as curvas do seu corpo com meus lábios, senti todas elas com meus dentes, esquentei com a minha língua. Você estava tão linda. Tão entregue. Tão minha. Meu coração batia forte, o suor caía. Parei no seu quadril. Me demorei, deixei que ele guiasse meu rosto até onde estavam meus dedos. Beijei você onde havia pele, lentamente, sem pressa. Memorizei cada centímetro seu. E enfim senti minha boca esquentar, minha língua tocar o que de mais delicado havia em você. Que sentiu, inspirou forte, segurou meus cabelos. Te beijei com todo o amor do mundo. Não havia outro lugar onde eu quisesse estar. Interpretei seus movimentos, dancei com você. Senti seu tesão, me fundi com ele. Você pressionava seu corpo contra mim, pedia mais. Te dei. Mais. Mais. Mais. Te dei tudo. E você devolveu. Com sua voz baixinha, que explodiu. Naufraguei em sua represa devassada. Ébria do seu prazer. Que é o meu prazer. Até a calmaria silenciosa dos nossos corpos nus. Enfim tornados um.



domingo, 3 de maio de 2020

Fé no verso

Quando for viver um grande amor
Não esquece da oração do poetinha
Pede seriedade e pouco riso
A coragem cega do coração que pulsa
Mergulha fundo no oceano desconhecido.

Caso o mar vire e venha o temporal
Pede de novo a bênção da rima
Varre dos olhos dela o cinza
Lembra que o amor pede peito,
Peito de remador.

E se no fim, em meio às preces, te pegar sozinha
Segue em paz, ainda assim, na selva escura e desvairada
Que no silêncio do lugar que te aconchega
Se fé nos versos aí dentro ainda restar
A vida chega e te sussurra um pouco mais.



segunda-feira, 27 de abril de 2020

Londres

Catando os cantos que teus lábios cantam
Senti na pele a mesma grama me beijar
Ouvi o vento me soprar acordes
Despi meus pés num sapato só.

Desbravo essa cidade que foi tua
Como se explora o corpo
De alguém que já foi triste
Com reverência, doçura e sede.

Nuns dias ela se entrega a mim
Noutros volta pra você
Quando então lhe reparo, de longe,
Privada dos teus olhos, feito eu.

Entre a gente
Dias vívidos vêm e vão
Meu diamante
Só a saudade tua é que não.


sábado, 18 de abril de 2020

Chevening | Storytelling

Pra quem não conhece, o Chevening é um "programa internacional de bolsa de estudos que permite que estudantes com qualidades de liderança de mais de 170 países e territórios realizem estudos ou cursos de pós-graduação em universidades do Reino Unido" (Wikipedia, 2020).

O caminho para conseguir essa bolsa, eu acredito, passa por contar muito bem uma história: a sua.


E para contar nossa história com paixão e verdade precisamos, antes de tudo, nos conhecer. Que somos pessoas únicas, já sabemos. Mas o que exatamente nos diferencia? De onde vêm nossos sonhos? Se conectar com nossa mais profunda essência, saber que nossas decisões têm sido tomadas com um propósito maior em mente, nos ajuda a entender isso.

O guia de reflexão que segue tem como objetivo ajudar você a colocar alma no seu application e, depois, na sua entrevista. Para provar a quem vai investir em você que nada do que você faz é por acaso. Que seu propósito é tão enraizado dentro de você, e que você conhece ele tão bem, que é natural que tenha gerado muitos exemplos concretos de liderança, networking, decisão de ir estudar fora e planos futuros quando voltar. Exemplos esses que você vai reunir para elaborar as redações que são exigidas no application.

A lista a seguir eu montei ao longo do meu processo, analisando memórias de líderes que me inspiram. Ela é uma sugestão do que pode ajudar você a mergulhar fundo dentro de si, voltar lá nas raízes de tudo, passando pelos seus aprendizados e fluindo naturalmente para o seu maior ideal (que pode muito bem se transformar em outro - muito maior - quando você chegar lá).

É um exercício de autoconhecimento, idealmente contínuo, para você se conectar com quem você é e, a partir disso, se fortalecer. Não somente para fazer sua luz brilhar mais forte nesse processo, e sim em todos os desafios que ainda vêm pela frente.

Boa jornada!

1. Objeto/situação na infância que engatilha um pensamento crítico/analítico
Você se lembra de algo que há muito tempo te intriga/incomoda/instiga? Como esse fato, contexto ou situação te tocam? Que reflexões nascem a partir disso em você?

2. Um livro preferido que molda um pensamento
Houve alguma ferramenta específica que te ajudou a começar a desenrolar esse novelo da curiosidade? Algo que te marcou? Pode ser um livro, mas também um filme, um show, uma conversa, uma foto, uma pessoa.

3. A criação de um protótipo mental/imaginário 
Como você vê o mundo? Qual seu entendimento sobre ele, a partir das situações pelas quais passou, os aprendizados que teve, suas crenças pessoais? Que protótipo mental surge a partir da junção única de tudo isso, que só existe em você?

4. Curiosidade 
Existe algo que você ainda não consiga explicar, mas que gostaria muito de entender melhor? O mestrado é uma ferramenta para entendermos profundamente o funcionamento, as causas das coisas. O que você tem muita vontade de explorar?

5. Crenças diferentes: sonho
Esse emaranhado de experiências e conhecimento que você tem muitas vezes te levam a pensar diferente da maior parte das pessoas. E muitas vezes desperta um sonho dentro de você. Qual é essa crença única que você tem? Steven Spielberg diz que nossos sonhos não gritam na nossa cara, eles sussurram (escrevi um post sobre isso aqui). Preste atenção nos sussurros dos seus sonhos. Nada é grande demais, nada é impossível. E agora, respira fundo: coragem para assumi-los.

6. Imersão em aspectos que sempre chamaram atenção 
Você já começou a colocar a mão na massa. Então bora elencar aqui os exemplos dessas situações. Não tem muitas? Comece a se envolver em algo, puxe uma iniciativa, dê o primeiro pequeno passinho na direção do seu sonho, hoje.

7. Contexto histórico/externo 
O que está acontecendo lá fora? Política caótica? Pandemia? Violência? Isso mexe com você? De que forma? O que estava acontecendo no seu bairro, cidade, estado, país, mundo, lá no passado, quando alguma coisa despertou dentro de você? E agora? O que todo esse contexto te diz?

8. Dia a dia no trabalho
Conecte tudo isso com o que você faz hoje. Encontre no seu trabalho os exemplos de como você engaja, influencia e lidera as pessoas em torno do seu propósito.

9. Envolvimento no tempo livre 
Os projetos voluntários nos quais você se envolve dizem muito sobre você porque é onde você escolhe colocar seu tempo não remunerado. São a expressão e a prova máxima da genuinidade das suas paixões.

10. Projeto concreto 
A alma que você coloca nas suas ações se reflete nos resultados que geram, nas pessoas que impactam, nas vidas que transformam. Identifique esses resultados. Eles podem ser pequenos ou grandes - não importa; o que importa é o quanto você sentiu que valeu a pena, o quanto sentiu orgulho de si.

11. Insight
Lá no começo a gente falou sobre uma situação que provocou sua reflexão. Provavelmente ao longo de toda essa trajetória que fizemos você acabou explorando as facetas que permeiam essa reflexão. Entendeu algumas coisas, continua sentindo curiosidade sobre outras, e talvez tenha recebido alguns insights sobre como solucionar os problemas que identificou. Se isso tiver acontecido, anote aqui.

12. Projeto concreto evoluído 
Se esse insight já aconteceu e te levou a ir ainda mais fundo nos seus projetos, como foi isso?

13. Conclusão
Alguma conclusão que você tira a partir de toda essa história?

14. Hiato
O que falta mudar, lapidar ou preencher no mundo, que você poderia ajudar a resolver?

15. Solução
Aqui a gente vai considerar que a solução para você resolver isso é um mestrado. Mas o que nesse mestrado, especificamente? Que disciplinas vão te ajudar a entender a causa desse problema? Que contatos podem te fazer alcançar as ferramentas que você precisa para isso? Isso está no Reino Unido? Em que cidade? Em que universidade? Em que empresas/ONGs/OIs/comunidades? E por que lá especificamente?

16. Passo seguinte
Hora de pegar todo esse aprendizado e contatos e ampliar a transformação que você já vinha fazendo. Qual o primeiro passo, logo depois de voltar? Como esse primeiro passo te leva ao segundo, no médio prazo? E quem é que você vai ser lá na frente? Permita-se se enxergar onde você quer estar. Dá um frio na barriga, né? Se não sentiu as borboletas, ouse um pouco mais. Não interessa o que te disseram, não importa o que fizeram você acreditar, esquece toda aquela história que nos contam sobre arrogância. As pessoas constumam confundir autoconfiança com prepotência. Arrogância ou prepotência é achar que se é melhor que alguém. Isso não existe. Autoconfiança presume humildade. É ter consciência sobre suas capacidades e também suas oportunidades de crescimento, sabendo que ninguém é melhor ou pior que ninguém. Somos apenas diferentes, em múltiplas fases, e, por isso mesmo, complementares. As coisas só funcionam bem na coletividade. Por isso, explorar nosso máximo potencial beneficia a todo o universo.

17. Impacto multiplicado 
É esse o mundo que você quer. E você faz parte desse mundo, ele precisa de você. Por isso, você pode e deve ajudar a moldá-lo dessa forma. E o melhor: o plano já está todo traçado. As ferramentas, as habilidades e a rede de seres humanos tão incríveis como você estão aí, para que a transformação aconteça. Com Chevening ou sem Chevening, você vai fazer a diferença. Eles não seriam loucos de não estar do seu lado nessa.

Vai fundo! E depois me conta se te ajudou?



Links úteis:

"Mas nem todo homem..."

Por que as frases "mas nem todo homem é assim" e "feministas culpam todos os homens pelo estupro, menos o estuprador, e colocam ele como o coitadinho da sociedade" são vazias?

Porque a epistemologia feminista (que, vale ressaltar, está sempre em transição) não é uma análise de CPFs. Não estamos falando de você, amigx. Nem do José, do Pedro, do Leonardo. Não se trata de indivíduos, e sim de um sistema, chamado patriarcado. Um sistema que você, ou o José, o Pedro e o Leonardo, e eu também, alimentamos todos os dias, de diversas formas.

Esse sistema veio de caravelas para a América, há aproximadamente 500 anos. Serviu como ferramenta de dominação, a partir do racismo, criado aqui. Uma elaboração de conceitos de "humano" (branco) e "não-humano" (não branco), usada pelos colonizadores para justificar as barbáries cometidas contra povos originários e africanos.

A partir dessa dominação, se desdobram as questões de gênero. Para demonstrar poder sobre outro homem, estupra-se sua mulher. Comportamentos considerados femininos, quando praticados por homens, são punidos. Mulheres não possuem direitos e são propriedade de seus maridos. Comportamentos e classificações étnicas e de raça são usados para o estabelecimento de "categorias" de mulheres: aquelas consideradas apenas para lazer e prazer, as que não merecem respeito devido aos seus comportamentos, as que se estão de acordo com as regras sociais e podem entrar na fila do casamento, e assim por diante.

Objetos. Sob diferentes transversalidades e níveis de opressão. E qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência.

Mas aí quando o José, o Pedro e o Leonardo nascem, a gente ouve: "mas coitados, gente, eles não têm culpa. O José virou um estuprador porque é doente, mas o Pedro e o Leonardo? Homens de bem. Castrem o José! Pronto. Não é genial?"


Não. Primeiro porque se o José estupra, não é porque ele é doente. É porque a sociedade está doente. E por meio dela, o José aprendeu, através de símbolos, linguagem e representações, o ensinamento ancestral de que mulher é objeto e, não só que ela precisa ser vulnerável em relação a ele, mas que ele só será considerado e respeitado como homem se impuser respeito sobre ela, muitas vezes a partir da violência. A partir disso, entende-se que o respeito que se deve a ela está relacionado a comportamento, vestimentas e espaço, e ele precisa controlar tudo isso a fim de manter sua masculinidade em dia. Afinal, ensinaram a ele que ela existe para servi-lo. Ou seja: castrar o José, meu amigo, não vai fazer ele parar de estuprar. No máximo, vai fazer ele arrumar um cabo de vassoura. Porque estupro não é sobre prazer: é sobre exercício de poder.

E aí vem o Pedro, que está a um passo de virar José. Ainda faz piada de mulher, compara sua esposa ao seu carro, colocando-a como objeto e posse, vai à missa de mãos dadas com a namorada mas puxa ela pelo braço com força numa discussão, humilha homens que reproduzem comportamentos considerados femininos, passa a mão ou beija sem consentimento na balada, categoriza mulheres de acordo com seu comportamento, vestimentas ou espaço que estão ocupando. Ele faz isso sozinho? Não. As pessoas riem das piadas machistas dele. Ninguém se mete quando ele perde o controle com a namorada. A sociedade reverencia e aplaude, porque é a mesma que criou José.

E tem Leo, o santo. "Como vocês têm coragem de apontar o dedo pra mim? Eu, que ajudo a trocar as fraldas das crianças, que lavo a louça!" Bom, primeiro que não foi pra você, Leo. E segundo: que ótimo tudo isso! Mesmo! Mas lembre-se: você também é beneficiado pelo sistema patriarcal, e alimenta o comportamento do Pedro. Então, se quer mesmo ajudar, que tal trocar "mas nem todo homem" por "vocês têm razão. Eu sinto muito. Conte comigo pra observar e corrigir isso aí."

E quanto ao início do texto, eu me enganei. Frases como "mas nem todo homem é assim" e "feministas culpam todos os homens pelo estupro, menos o estuprador, e colocam ele como o coitadinho da sociedade" não são vazias.

Elas estão cheias. De intenção. Intenção de se abster da conversa, intenção de encerrar a conversa, intenção de mudar o foco, intenção de dormir tranquilo enquanto a barbárie segue.

Agora que você sabe, é só escolher um lado.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

A fenda

Naquele dia eu já sabia, e hoje me foi confirmado. Eu estava presa em uma fenda entre o tempo e o espaço. Com ela. Era um tempo contado e interminável. Se estendia pela imensidão do firmamento, tal e qual sua matéria-prima. Receios envolventes, borboletas no estômago, fúria contida. O desassossego pacífico do querer.

O trem estava cheio, mas que engraçado: tanta aglomeração, e ninguém existia. Éramos só nós - estávamos absolutamente sós. Presas pela tão raramente celebrada distância que separa os cantos dessa cidade. Esse lugar onde tantas vezes, antes do nosso encontro, sonhei morar. Mais uma estação. Não era a nossa. Ufa. Outro mergulho num universo desconhecido estava permitido. Eu descobria ela. E com ela eu sentia o prazer de estar longe, bem longe, do mundo.

Se foram dez ou mil passos até o apartamento dos nossos amigos, não sei. Sei que flutuamos, e havia luzes no caminho. Algumas partiam dos arranha-céus, num contraste aos faróis dos antigos carros a abrigar sisudos - ainda que polidos - taxistas ingleses. Outras vinham de seus olhos e sorrisos. E me cegavam brevemente. Era ali? Algo me dizia sim. Havia uma cadência, daquelas que embalam o desejo à beira da consumação. Mas segui.

Chegamos e, não fosse o aroma da culinária indiana, a bolha talvez não tivesse resistido. Palavras em um idioma desconhecido. Quão amável? Mais um suspiro distante da lucidez. Um sopro em meus ouvidos repetiu: é uma fenda. Era sim. E aproveitei esse hiato na nossa existência para notar seus dedos. A cor dos seus cabelos. Apreciar as palavras que ouvi de sua boca; algo que não volta mais.

A rachadura aos poucos se fechava. O rasgo na realidade chegava ao fim. Não nos beijamos, não nos tocamos. Mas naquela brecha entre o tempo e o espaço, eu sei, fui sua. Fui sua nos cafés de Roma, nas ruínas de Cusco. Dividindo a vista da aurora boreal, embriagadas pelas ruas da Jordânia. Em cada canto daquela casa, no vagão que nos levou de volta. Fui sua em todos os lugares desta e de outras dimensões por uma fração de segundo que até hoje se repete em alguma galáxia. E nesse instante breve e eterno, nesse espaço estreito e desmedido, eu sei que ela também foi minha.