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quarta-feira, 3 de julho de 2013

A vida vivida

Esse é para matar a saudade de um dos poetas que mais gosto de usar e abusar: o poetinha.

Quem sou eu? Há aproxidamente oito anos eu escolhia uma frase do último verso para responder a esta pergunta: "O bater invisível de um coração no descampado". O descampado me parecia muito familiar naquela época. E o bater invisível de um coração? Como traduzir melhor a sensação de quem não pode revelar o que sente? 

Nesta manhã fria, porém, eu escolheria o terceiro: "De que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino, Rio que sou em busca do mar que me apavora". Ou o sexto verso inteiro.

O convite aqui é para os leigos amantes da literatura. É para a apreciação mais simples. Deixar a análise crítica e a interpretação científica de lado e só sentir:

A vida vivida

Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?

De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?

Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?

O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?

O que é o meu amor, ai de mim! senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?

O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes?

A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio
A quem falo senão a multidões de símbolos errantes
Cuja tragédia efêmera nenhum espírito imagina?

Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?

O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?

O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
O temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado...
O que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?

Vinicius de Moraes

Um comentário:

  1. Uau, que belo texto! Incrível..não esperava menos do nosso amante da vida Vinícius de Moraes.

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