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quarta-feira, 26 de abril de 2017

O desafio de não julgar

A gente não escolhe onde nasce. Tem quem saia da maternidade quentinho e confortável. Tem quem venha ao mundo em condições precárias. No corredor de um hospital do SUS, sem pai, sem mãe, sem família. Sem ter uma casa para ir. Sem perspectiva. Para algumas pessoas as primeiras lembranças  da infância são de amor. Para outras, são de violência. E, carregando cada um a sua cruz, muitos conseguem chegar a fase adulta. 

Chegamos aqui e aí vira cada um por si. Atribuindo a nós mesmos o poder de juízes cegos, esquecemos que cada um tem uma história, e condenamos. Medimos as pessoas, sem medo, com a mesma régua. Classificamos mendigos de folgados, sem-terras de vagabundos e os que lutam pelos direitos das minorias de baderneiros inúteis. Sabemos também, é claro, que toda pessoa que tem muito dinheiro é podre, que todo político é corrupto e que quem não concorda conosco, bem, naturalmente é burro. Cotas para negros, demarcações de terras indígenas, reivindicações feministas? Privilégio. Esquecemos a história; deliberadamente ignoramos o contexto. Antes de pensar, apontamos o dedo. Quem é de direita é insensível. Quem é de esquerda é irracional.

Nossa empatia com as experiências do outro, as perspectivas do outro, a defesa que o outro desenvolveu para poder sobreviver, é praticamente zero. Já paramos para pensar o que aconteceu na nossa vida para sermos quem somos hoje? Afinal, como é que o outro vê o mundo? Como é que ele sente as perdas? Como é que ele reage a um ataque?

O Tsedaka Challenge é uma provocação que convida o desafiado a doar - para uma família necessitada ou uma organização sem fins lucrativos - 1 real para cada like recebido em um post e 2 reais para cada comentário. Ele é uma proposta bonita que pode ter um impacto pequeno, caso uma pessoa só faça, mas que me fez pensar. O que é que está ao meu alcance? De quanta coisa eu estou disposta a abrir mão para fazer a mínima diferença que seja num mundo que é completamente desigual? Qual o tamanho da minha gratidão pelo que me foi dado sem critério algum quando nasci?

Nós, que viemos ao mundo quentinhos e confortáveis, somos muitos. E vemos, todos os dias, um imenso desequilíbrio ao nosso redor. Ele não acontece porque as pessoas são preguiçosas, ainda que a preguiça exista. Não acontece porque os cidadãos menos favorecidos não lutam ou não matam um leão por dia, ainda que haja exceções. Não acontece porque as pessoas não são heroínas, como muitos de nós nos consideramos ser. O desequilíbrio existe porque não chegamos nesse mundo de forma igual e, ainda assim, é cada um por si.

Mais do que me encorajar a sair da inércia e efetivamente ajudar alguém, o desafio me fez pensar. E que ele faça todos nós pensarmos. A vida é uma só, ela passa rápido e a felicidade fica, sim, mais fácil quando temos tudo isso no que nos agarramos com medo de passar perrengue, mas não é nessas coisas que reside sua essência. E além das diferenças sociais, existem as diferenças emocionais. E nós temos o tempo pra compartilhar, temos as boas ideias, e temos o amor. 

Isso aqui é só um monte de palavras que se acumularam na minha cabeça quando fui desafiada. E já que resolvi escrever, vai também uma espécie de oração. Que mais pessoas alimentem a empatia em vez do julgamento descontextualizado. Que nasçam empreendedores sociais, e que eles acreditem que é possível, sim, tornar o mundo mais equilibrado, ainda que dentro do capitalismo. Que mais Tsedaka Challenges sejam lançados por aí. Que a gente julgue menos e se ajude mais.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Por que Juliana Paes não deveria ter criticado os supostos 'excessos' do feminismo

Por uma simples razão: ela não entendeu o que é o feminismo.

Quando essa notícia invadiu minha timeline pela primeira vez, pensei: ai, deixa. Alguns momentos depois, porém, uma amiga endossou a postagem. Foi quando resolvi ler a matéria.

"Somos tão competentes quanto os homens, mas não iguais." 

Previsível, pensei. Costumo chamar esse posicionamento de "convicção-zona-de-conforto". Identificamos tal arquétipo de crença nos casos em que o sujeito até tem uma posição, sim, mas superficial e, por isso, normalmente, simpática. Em outras palavras: Juliana foi neutra. Agradou a homens e mulheres que não querem se indispor com o feminismo, nem com o machismo, pois não têm interesse em entender a coisa toda de forma mais profunda. Porque o feminismo é polêmico, né. Ser feminista é polêmico. Ser anti-feminista nos dias de hoje, convenhamos, também o é. Portanto, por que não nos aninharmos no "limbo" ideológico? Claro! Ele é quentinho! E gera menos comentários negativos.

Bom, vamos ao texto da nossa poderosa:

"Existe uma linha do feminismo com a qual eu não concordo muito. Acho errado esse desejo de igualdade com os homens a qualquer custo. Somos tão competentes e valiosas como eles, mas não iguais. A mulher precisa de mais tempo para se recuperar de uma gravidez, e há outras questões que permeiam nosso universo. A sensibilidade, o lúdico, o caminho da ponderação, o afeto nas relações de trabalho... Tudo que faz parte do universo feminino e matriarcal deve ser respeitado"

Concordo. Peço licença e ajuda às mulheres que lutam pela igualdade de gêneros para tanto. Ainda estou construindo meu conhecimento e todos os dias aprendo alguma coisa. Mas sei que somos tão competentes e valiosas como os homens. Não penso que isso seja uma questão. E de fato, não somos iguais a eles. Não temos barba, não temos tantos pêlos no corpo, engravidamos, temos hormônios e uma estrutura biológica diferente. Enfim. Diferenças físicas. Palpáveis. Concordamos nisso. Acontece que não é desse tipo de igualdade que o feminismo trata, e é aí que entra a superficialidade dos comentários da Srta. Paes.

A igualdade da qual trata o feminismo é a igualdade de direitos e a extinção das obrigações sociais. Não vou entrar em questões que se estendam além da aparência hoje pois foi praticamente só nesse quesito que a Juliana se pautou para criticar o movimento. Outro dia posso escrever sobre como a obsessão pela aparência feminina pode se desdobrar em muitos problemas, como a objetificação, o abuso e a violência extrema.

Mas voltando à preservação do universo feminino. As feministas não querem acabar com o universo feminino. O lúdico é lindo! A ponderação é maravilhosa! O afeto cura. Elas não querem que todas as mulheres deixem de engravidar, sejam menos sensíveis ou passem a ter pêlos por todo o corpo. O que elas querem é que as mulheres possam escolher (enfatizando novamente a palavra possam, bem diferente da palavra devam) o que querem ser ou fazer de suas vidas e seus corpos.

O feminismo luta, argumenta e propõe mudanças, não para impor alguma coisa a alguém. Pelo contrário, a ideia é justamente despressurizar. O intuito é que as mulheres possam ter seus pêlos, caso queiram, sem serem chamadas de feminazis ou porcas por isso. Sem serem escrachadas e humilhadas por homens - e outras mulheres - que sentem nojinho desses pêlos.

Elas desejam que aquelas mulheres que não querem engravidar possam viver em paz com sua escolha, sem ter que ouvir críticas e comentários desdenhosos todos os dias por isso. Que mulheres possam ser líderes lúdicas, afetuosas e sensíveis, mas também sérias, firmes e rigorosas, se esse for seu temperamento, e que sejam admiradas por isso, que sejam elogiadas, chamadas de foda, assim como fazemos com os homens sérios, firmes e rigorosos. Elas não querem que as mulheres sejam chamadas de vacas só porque não são sensíveis, "como toda mulher deveria ser".

Se a opção por sair do padrão social desenhado para uma "mulher", que a Juliana Paes tanto defendeu, gera menosprezo, desrespeito e julgamento, ainda que de forma velada - e você sabe que isso acontece, certo? - é porque vivemos presos a amarras sociais. E aí (atenção para o teor chocante da frase a seguir) usar salto, maquiagem e batom vermelho passa a não ser mais uma escolha, e sim uma obrigação.


"Não quero queimar sutiãs. Gosto de sutiãs! Não quero quebrar saltos de sapato em busca de liberdade. Gosto de me enfeitar, e nós, mulheres, não fazemos isso para o macho. Fazemos porque dá prazer cuidar de si e cuidar do outro."

Será mesmo, Ju? Concordo que nos arrumamos para nos sentir bem e que nos faz bem cuidar de nós e dos outros. Mas por que nós mulheres só nos sentimos bem se estivermos arrumadas? Por que só nos sentimos lindas se estivermos raquíticas, com o cabelo perfeito, maquiadas, de vestido e em cima de um salto? Um salto que nos deixa completamente inaptas a executar qualquer tarefa básica (como atravessar a rua, por exemplo), uma maquiagem que nos toma horas e praticamente nos transforma em outra pessoa e uma magreza utópica que nunca vamos conseguir alcançar, afinal, toda segunda-feira a sociedade vai lá e coloca o sarrafo da magreza um pouco mais para o alto.

Alguém já se perguntou por que será que os homens não precisam de maquiagem para se sentirem bem? Por que não precisam de colares, brincos, anéis, bolsas, sapatos, lenços e unhas coloridas? Por que é que eles não precisam, necessariamente, ser bonitos? Por que é tão mais importante para eles serem inteligentes, bem sucedidos, ou até engraçados, e nós, só precisamos, desesperadamente, todos os dias, sermos bonitas? Agradar aos olhos? Encantar? Aformosar o ambiente?

Ser bonito pra eles é um plus. Para nós, ser inteligente é que é. Ser competente, para nós, é excedente. Loira é burra. Mulher não sabe dirigir. Política não é assunto para senhoras. De economia a patroa não entende. Peraí. Será que o fato de ficarem repetindo isso o tempo todo não acaba por nos fazer acreditar? Será que esse reforço de baixa auto estima não nos subjuga? Não nos faz largar lá atrás na corrida por sucesso financeiro? Ou pior, nem tentar largar? Será que sucesso financeiro não significa autonomia, segurança, independência, direitos, saúde, proteção, vida? Será que não coloca uma responsabilidade grande nos ombros dos homens também? Será que não os faz se sentirem péssimos se sustentados por uma mulher?

Não, a questão aqui não é convencer nenhuma dama a parar de se arrumar e virar CEO de uma multinacional. Muito menos transformar os homens em pinheirinhos de natal e colocá-los para lavar louça. Nem falar mal da Ju Paes. Se você pensou isso e começou a entrar em pânico, se acalme. A finalidade é apenas mostrar que, defender, da forma como a moça defendeu, os padrões impostos ao gênero feminino, é perpetuar essa cultura de submissão na qual vivemos e que prejudica a sociedade como um todo. Calma, não dói aceitar que vivemos em uma cultura de subordinação. Não é drama, é a realidade. Talvez você não sofra tanto com isso, talvez nem eu, mas tem muitas mulheres que sofrem, e é por elas - também! - que o feminismo luta.

Se hoje é um fato que não ocupamos cargos de liderança em pé de igualdade (dados aqui), talvez seja porque passamos a infância e a vida adulta buscando o elogio que mais recebemos desde que nascemos: linda. É nele que nos agarramos e é ele que procuramos sempre que queremos nos sentir amadas. Os meninos também gostam de ser chamados de lindos, claro que sim. Mas não é numa busca incansável de ser lindos que eles vivem. Quando querem se sentir bem, caçam os elogios que receberam desde pequenos: esperto, inteligente, garoto bom

O feminismo nunca te obrigará a parar de se arrumar, mulher. Ele quer que você faça o que lhe deixa feliz. O que os "excessos" do feminismo não querem - e isso não me parece nada radical - é aceitar que você obrigue todas as mulheres a seguir o seu padrão. E você não as obriga apontando o dedo e mandando. Você as obriga rindo da cara delas com as suas amigas, se elas não estiverem iguais a você. Você as obriga estimulando a competição entre vocês. Exaltando as que seguem seu padrão e, consequentemente, diminuindo as que não seguem, como fez nossa amiga Juliana na matéria.

Homem, você não precisa acabar com a auto estima de uma mulher só porque ela não agradou aos seus olhos. Pode elogiar a beleza, muitas mulheres se sentem amadas assim. É claro que o ideal de sermos tratadas de forma igual, de fato, está longe. Não será amanhã e nem depois que a beleza deixará de ser o primeiro atributo (e muitas vezes o único) valorizado no gênero feminino. Mas há tantas outras qualidades em uma mulher além dessa. Não custa tentar começar.   

"Sou uma feminista de saia, sutiã, salto alto e batom vermelho."

Confesso que fiquei feliz pela Juliana Paes ter se declarado feminista. Achei fofo da parte dela mostrar que se engaja na luta pelos direitos das mulheres. Pena que faltou aprofundamento. O posicionamento dela fez com que a essência da luta feminista ficasse, mais uma vez, no escanteio, com cara de bicho selvagem pronto para rasgar suas roupas, roubar seu Louboutin e borrar sua make.

Não, o feminismo não quer te atacar, ele quer te proteger e ampliar suas possibilidades. Ele quer aproximar as pessoas, no sentido mais justo da palavra, e somar. Discorda? Dialogue. Fomente o debate saudável, com aprofundamento, com conhecimento, com amor à verdade, e não com preconceito e superficialidade, como fez nossa amiga Ju. Encarar o que incomoda de frente pode nos tornar muito mais livres, mais humanos e maiores.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Nada de choro, querida.

Quando eu era criança (devia ter uns 3 ou 4 anos) meus pais compravam vários livros educativos e liam para mim e para o meu irmão com frequência. Por um desses livros eu desenvolvi um carinho especial.

A história era sobre a frustração da Minnie com seu chapéu, que era muito feio para ela poder passear. Mickey, então, lhe consolava, dizendo para ela não chorar, pois para tudo havia um jeito na vida. Eles colheriam as flores no jardim e o chapéu viraria uma festa. Poderiam, assim, passear contentes pela floresta.

Meus pais leram essa história para mim tantas vezes que eu a decorei (assim como eles, e meu irmão, e todas as pessoas que me rodeavam, provavelmente). Saía com o livro na mão repetindo tudo, na ordem, puerilmente ostentando a dificuldade natural da idade na pronunciação dos erres.

Quando percebia que as pessoas ficavam espantadas - afinal, eu era uma criança muito nova para saber ler -, a pequena Marina dava ênfase na encenação, acompanhando atentamente as letrinhas, semblante franzido, páginas viradas com precisão temporal. Naquelas horas eu me sentia uma mágica apresentando seu número à plateia. Teatralmente comedida, sorria por dentro.


De toda aquela diversão, no entanto, tirei algo que na época não faria tanto sentido. Uma frase que reverbera em minha mente até hoje, especialmente nos momentos em que enfrento um problema para o qual não consigo ver saída.

Eu continuo buscando respostas em livros. Continuo desenvolvendo carinho especial por alguns deles. E quando os leio e lá encontro a luz (ou quando a encontro de qualquer outra forma), não é mais o Mickey que ouço, ou a Minnie ou meus pais. É a pequena Marina que sinto, confiante e objetiva, que sussurra lá do meu inconsciente:

"Nada de choro, querida, para tudo há um jeito na vida."

Ela sempre tem razão.

Na busca por elucidações descobri que, enquanto a resposta não vem, a gente espera. E finge. Finge que sabe o que está fazendo, finge que entende, fingir que lê. Mas finge com fé. Finge de um jeito honesto. Finge se divertindo.

Eventualmente, como num passe de mágica, a solução estará lá. Porque sim, para tudo há um jeito. Ela tomará o lugar do fingimento, e sorriremos também por dentro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Amor dormente

O amor é uma singela dormideira
Que recordo da infância em meu jardim
Por um toque à vida vem num estopim
Fecha-se idem se na ausência corriqueira.

E da vida então que súbito rasteira
Pôs no amor necessidade de ter fim
Fez minhas lágrimas montarem um motim
A defender-se de sua boca lisonjeira.

Cuspo enfim o meu desejo atrás da grade
Donde sai predestinada e delinquente
- azarando, atraiçoada, a iniquidade

Esta lamúria do meu peito resiliente:
Se ao tocar a dormideira o amor se abre
Faz silêncio, então; que durma esse indecente.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Dona Felicidade

A felicidade a ela pertencia. Dominava o dom da bem-aventurança, uma vez que era senhora de si, de seus sentimentos e de sua liberdade. Soberana das emoções e violenta na existência, esbanjava o inabitual. Nada parecia lhe desconcertar. Sua solidão era permanentemente provisória, os segundos antes de um beijo sempre tomados por rituais de cortejo. Suas mãos não conheciam a escassez. Nunca estava só. A confiança em seus planos lhe asseguravam distração. Mais do que isso: não lhe contentava o comedimento, queria mais. Para ela não havia noite sem manhã, copo ou coração vazios, nem vida, fosse esta desprovida de contentamento. 

Procurei evitar que se aproximasse; a melancolia, minha cravejada matriz, parecia enciumada. No entanto, almas desamarradas sempre me impressionaram - raras e elegantes que são - e não resisti. Deixei que a curiosidade direcionasse meus olhos. Tratei-a com amabilidade agressiva, procurando preservar a indiferença, mãe-protetora. Beijei sem pretensão. Contudo, senti. Deus, como senti. E ela avançou, obedecendo sua naturezaFeito um posseiro, se instalou. Invadiu meu espaço pessoal, meu apartamento, minha cama. Ocupou tudo, até mesmo meu vazio. A soberba me impediu de dizer não. Sua luz me cegava e seduzia, e lhe convidei a entrar, a um lugar de onde não sairia mais.

Sorriso largo, violão, um só sapato, café-que-deixei-esfriar, pão-de-queijo-que-muito-cedo-não-dá, vida, brasa, poesia, mar, flores, dor, amor, desejo, olhos, boca, mãos, fotografias, Rio, aliança improvisada, Ilha, areia misturada, Buenos Aires, anéis, Inhotim, arte, São Luiz, cavalos, Trancoso, paz. Me levou para conhecer o lado da vida em que, com força, se misturam músicas, texturas e sabores.

Tinha pressa. A incerteza do amanhã lhe atirava, e eu queria mais. Já havia esquecido de me importar com a vida; ela me resgatara. Fez com que eu tivesse vontade de subir a montanha novamente, dessa vez ao seu lado. Segurei sua mão, amei novamente. Em alguns momentos fiquei para trás, tinha medo de chegar. Noutros corri, tinha medo de perder. Depois de muitas pedras escorregadias, quedas e água em abundância, enfim, chegamos.

A vista lá de cima era linda. Estonteante mesmo. A temperatura era perfeita e eu sentia o vento bater em meu rosto. Havia árvores de todos os tamanhos, rios muito azuis, flores coloridas, pessoas queridas, momentos que me entusiasmavam e me invocavam. Sorri, satisfeita, e olhei para o lado. Ela estava ali comigo. Também sorria. Seus olhos brilhavam e me encaravam profundamente. E então, adquirindo uma expressão serena e decidida, anunciou:

- Se prepare. Quando você voltar de viagem, vou te pedir em casamento.

Por um segundo, senti minha alma em queda livre. Que delícia de sensação! Pouco durou. De súbito, escorreguei, e o sobressalto me fez tremer. Estávamos no topo de uma montanha, era um precipício que havia ali. Bonito? Naturalmente. Um sonho? Claro que sim. Mas isso não o isentava de sua real condição: um despenhadeiro. Um abismo. A imensidão. O caminho do baque! Vertigem. 

Sem coragem para encarar minha própria fraqueza, me encolhi. "Vamos voltar", disse o covarde que havia em mim. "Quer se espatifar novamente?". A resposta era não. De jeito nenhum. Mas e tudo aquilo? Eu teria de virar as costas a todas as sensações que estariam por vir. Poderia estar negando a felicidade. Poderia estar negando a dor. Tudo parecia bom como estava, era mesmo necessário ir além? Não. Não a qualquer custo. E então, consternada, retrocedi. 

Me retirei para dentro da montanha. Escureceu. A dona da felicidade me seguiu, confusa e, notando meu ar de desdém - entediante escudo -, chorou. Quis me puxar, resisti. Quis lutar, deixei que ganhasse. Quis fugir, deixei que partisse. As pedras escorregadias que encontrávamos passaram de pequenos obstáculos a bloqueios robustos. Salguei a água que garantia nossa sobrevivência. Debilitadas, não conseguíamos mais alcançar nossas mãos. Pedi para sair, não concordou. Teimei, me agrediu. E já fechada demais para conseguir voltar, fugi. 

Lá fora encontrei novamente o desalento. A tristeza, afinal. Distante da euforia, em casa novamente eu estava. O sofrimento, esse eu conhecia bem: desde que não te movas, ele te poupa. Se não ousares amar demais, viver demais, afrontar demais, a tristeza se conserva mansa, quase imperceptível. Resignada no conforto da dor que pouco incomoda (apenas existe), deixei que a felicidade partisse. Foi com ela o extraordinário, a liberdade, a presença. Retornou o vazio, a segurança e o tédio. De onde a senhora da alegria se instalou, nunca mais sairá. Eu, todavia, comigo mesma terei de lidar. Com minha ciumenta melancolia, amante do medo. Que fortificou meus muros, me tirou a luz.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Dúvidas

Pois quando se ama, que desassossego
Bem me quer, mal me quer? O que pensará?
Um mirim de silêncio pra três de desejo
E ver se achegando o nocivo será.

O peito do amante se assembra a um preá
Que rói as beiradas de fome e de medo
Selvagem, ciumoso, arisco a espreitar
Na noite, embrenhado, quem lhe dá receio.

Se busca imprudente um sinal do amante
É escravo perdido em tumultos e falhas
Afunda-se - tolo - em conceitos errantes

E brinda ao menor sinal de lealdade.
Atrás do que dói o que encontra pujante
É a sentença cruel de viver de migalhas.


Bahia

Abri os olhos. A cama era mais estreita do que de costume. Os lençóis brancos de aroma fresco davam a sensação de aconchego, mesmo fora de casa, e os mosquiteiros amarrados à estrutura ao redor da cama lembravam filmes de princesa que assistia na infância. Tudo era branco. E estava claro demais para dormir. Que horas seriam? A julgar pela intensidade de luz que entrava pelas fendas da janela, também de cor branca, havia perdido a manhã. Olhei para o lado e ela estava ali. Ainda dormia. Sorri por dentro, era incomum para mim acordar antes. Resolvi conferir o relógio: 6h15. Que maravilha, eu estava na Bahia. Virei para o outro lado e voltei a sonhar.






sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Não é fácil

Não é fácil. Um mês depois de seu pai convidar seu(a) namoradx pra passar o réveillon com a família ele vai dizer, em tom fúnebre, que "isso" é uma doença e que ele já entendeu que não tem o que fazer; é ~aceitar~ e seguir a vida.

Quando você sonhar que sua mãe, depois de 7 anos digerindo a notícia que você deu, finalmente parou de sofrer e percebeu o quão feliz você é, vai ser surpreendida por uma supercomemoração ao fim do seu namoro. Vai flagrar apoio a Bolsonaro na timeline daquelx amigx que sempre disse te entender e estar do seu lado pro que desse e viesse. Vai ver outrxs dizendo que têm orgulho de ser hetero. Vai achar que ninguém entende nada e pensar que está sozinhx. 

E se, por um segundo, você esquecer tudo isso e se convencer de que a homofobia não existe mais, vai se permitir demonstrar amor em público. E aí talvez o garçom sutilmente te chame a atenção. - Mas você precisava fazer isso? Sim, vai ter quem não compreenda a necessidade dos casais de demonstrar afeto, e pode ser que você ouça isso também. 

E pouco depois de se emocionar com o Facebook colorido pela vitória do amor, virá uma notícia de chacina com pessoas que poderiam muito bem ter sido você, pra te jogar de volta à realidade. Vai ter gente dizendo que a sua comunidade mereceu. E você vai lembrar que todos os dias alguém morre por ser homossexual. 

Amigos foram expulsos de casa por amarem pessoas do mesmo sexo. Pessoas foram espancadas por isso. Tem quem se culpe tanto que abre mão da própria vida. 

Não, a maioria de nós não vai viver o suficiente pra achar isso fácil. Seria muita alienação e inocência pensar que sim. Mas a felicidade é tanta que vale a pena. 

E é por isso que eu compartilho minha experiência. Talvez levantando nossa voz a gente faça outras pessoas acreditarem. Pessoas que talvez estejam passando pelo pior agora, ou que desconfiam que vão passar, ou que estejam com medo de que nunca passe.

Você não está sozinhx.


Carta a minha família

To aqui ouvindo os barulhos de vocês, as conversas, pequenas provas de que estão na sala ou no quarto; de que estão em casa. E pensando: há quanto tempo eu não sei mais o que é ter isso todos os dias? Há quanto tempo não sinto perto de mim tanta gente que me ama sinceramente? Que só me quer bem? Que sai na rua e volta com uma bota nova porque viu que a minha está em péssimo estado? Que passa horas consertando portas de armários caindo aos pedaços, trocando lâmpadas e fazendo um cházinho sem perguntar antes se eu quero? 

Ter vocês aqui é lembrar que eu tenho uma base. Uma origem. Um porto seguro. Um porto firme pra onde eu posso voltar, pro qual eu posso recorrer, se tropeçar. Ter vocês aqui é lembrar que eu tenho uma história. E que linda história. Que história de amor. Eu fui uma criança tão esperada. Era o centro das atenções. Quando penso no carinho que recebi, no ninho quentinho e aconchegante em que cresci, só penso na palavra "amor", amor, amor! 

E aí lembro do quanto eu me afastei de vocês. Me fechei e me protegi por pensar que ser eu, não seria suficiente para vocês. Que quando vocês soubessem que eu não era aquela princesinha que vocês tanto cuidaram, vocês deixariam de me amar. Eu tinha certeza de que jamais seria aceitável para vocês. 

Porque quase ninguém como eu é. Pessoas como eu são chamadas de promíscuas. Vocês não me criaram para ser promíscua. Pessoas como eu são espancadas na rua, como vira-latas órfãos raivosos. Vocês não conseguiriam me amar assim. Pessoas como eu são alvo de protestos religiosos, não vão para o céu, merecem apenas misericórdia. Vocês não me ensinaram tanto a rezar, para eu acabar no inferno. 

Então eu me fechei e sofri sozinha. Lutei contra mim mesma. Me odiei. Me desprezei. Me chutei na rua, porque eu era um cachorro vagabundo e promíscuo que não merecia amor. Nem o meu próprio amor. 

Mas eu não podia me matar. Lá no fundo uma luzinha teimava que eu tinha algum valor. E depois de alguns anos à margem de mim, eu tentei me entender. Tentei entender aqueles que são como eu. Tentei e tentei, até aquela raiva de mim mesma passar - a muito custo, e eu conseguir cultivar um pequeno afeto por mim mesma novamente. E ele foi crescendo. A ponto de me dar coragem.


Quando eu me amei o suficiente eu pensei que talvez vocês também pudessem me amar. E essa coragem me fez querer tirar aquela máscara claustrofóbica e deprimente que eu submissamente carreguei por longos anos. Joguei ela num canto e vocês escreveram mais um capítulo da nossa história. Um novo capítulo que eu jamais esperava. Vocês reviveram o amor. 

Apesar de todo o sofrimento que eu vi vocês passarem, e que sei que ainda passam (porque eu também passei por ele e ainda passo), vocês me respeitaram. Me olharam, ao menos. Me perguntaram. Me ajudaram. Mais do que talvez eu mesma tenha me ajudado. Vocês superaram e reestruturaram (e eu usaria esses verbos no presente contínuo também) conceitos (ou seriam pré-conceitos?) impostos pela sociedade. Comunidade essa na qual estão inclusos seus próprios pais e mães, dizendo horrores desde que nasceram. Vocês choraram por imaginar que eu sofreria; afinal, quem não sofreria se toda essa gente pensasse de si o que vocês pensavam? O que eu mesma pensava das pessoas que são como eu? 

E hoje vocês estão aqui. No banheiro, na sacada. Escovando os dentes, fazendo meu café. Sabem quem eu sou, e estão aqui. E estão me olhando com amor. E como eu AMO vocês por conseguirem me amar. E como eu sou feliz por finalmente entender que eu mereço o amor de vocês. Porque o que eu pensava de mim mesma estava equivocado. Porque o que as pessoas falam, elas falam porque não sabem o que é isso direito. Porque elas se julgam no direito de "nos amar" apesar de. Apesar de sermos vis pecadores. Apesar de sermos desviados. Apesar de termos escolhido o caminho do mal.

Sendo que na verdade são elas que merecem nosso perdão. Elas não sabem o que fazem. Não sabem o que pensam. Não sabem o que dizem. São manipuladas todos os dias para manter suas mentes trancadas. São vítimas de uma ditadura histórica que chega a ser patético continuar seguindo quando se vê de fora. São assim porque não têm informação - ou selecionam as informações que justificam o que as fizeram pensar da mesma forma quadrada desde pequenas. Têm medo do que foge aos seus alicerces. Não querem se abrir, não querem amar DE VERDADE. Querem julgar e vitimar. Querem se salvar, jogando os outros na fogueira. 

Mas o que importa a opinião deles, se nós nos amamos? A cada um de vocês cinco: muito obrigada por serem a minha família.

Curitiba, 31 de julho de 2015.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Paradoxo racional

Como dizer "eu te amo" e "adeus" ao mesmo tempo? Qual o sentido de uma vida não vivida? Vivida pela metade, vivida sem intensidade? Qual o sentido de uma vida sem amor? Por que abrir mão das borboletas na barriga? Por que evitar o sofrimento se ele só pode ser evitado em detrimento da felicidade? E se abrir mão da felicidade for o próprio sofrimento? A complexidade da razão humana atinge níveis paradoxais. Irracionais. A preservação de si e de outrem nos tolhe a vida. Minimiza as experiências. Nos joga para o centro, para o morno, para a mesmice. Quantas pessoas você conhece que juntaram os pedaços de seu coração e lhe entregaram ao desconhecido novamente, destemidos? Fosse ele, o coração - a própria vítima - quem mandasse nisso tudo, se jogaria de novo. Haveria muito mais vida no mundo. O equilíbrio entre o emocional e o racional é que desequilibra o solo dos amantes. É o que faz reverberar e gerar dúvidas, anseios, julgamentos, análises, pensamentos, inseguranças, medos. A intensidade nos assusta, até amor demais nos assusta. Estamos acostumados além da conta com esse meio termo insano. Domesticados pelo tempo, é o que somos. O que faríamos se não tivéssemos medo?
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Relembrando o post de 30 de julho de 2013:

"Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helênico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helênico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a ação é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo."

Oscar Wilde