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quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Tabacaria

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso tanta coisa!
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

Álvaro de Campos, 15-1-1928



É um gênio da literatura!

Eu estranhamente, ironicamente, peculiarmente me identifico com esses versos.
Leio, releio, num ou noutro, sempre acabo me encontrando.
Seráquesóeu?

Um comentário:

  1. não sei se a minha opinião é tão interessante assim, mas de qualquer maneira registro-a. Muito bacana o espaço, pricipalmente a descrição de seu perfil... tudo muito poético, romantico, subjetivo e talvez metafórico, mas o que é o mundo se não um pouco de todos estes adjetivos, não é mesmo!?
    Parabéns pelo espaço. Saudades. Beijos.

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